Covarde

julho 3, 2008 por

Olha, ele se senta na mesa e diz que vai começar a escrever o trabalho que o professor passou há um mês e que deve ser entregue semana que vem. Pega os livros de referência, escreve uma espécie de índice do que quer colocar no papel, escolhe o primeiro texto com base na sua simpatia pelo autor e começa o trabalho. Lê as duas primeiras páginas, faz algumas notações nos pés e nas margens do livro. A expressão “ostensão diferida” lhe chama a atenção. Vai ao dicionário, depois a outro livro, um manual, encontra então as referências que queria. Ora, ostensão diferida é exibir (ostentar) algo para diferenciá-lo de um outro (diferida). Pensa que o índice que havia feito antes não está bom, pode e deve deixar para começar este trabalho em outro momento, agora sua cabeça parece confusão, a coisa é simples, rápida e tranqüila de ser feita, mas agora seria melhor ler aquele outro texto que mandaram por e-mail.

Se passam cinco dias, na véspera de entregar o trabalho ele se dá conta de que tem algo atrasado, de que precisa da nota e que o professor não dá sorrisos de complacência aos atrasados. Começa a ler os textos que estavam esquecidos no canto da mesa sob um livro de quadrinhos, uma agenda de dois anos atrás e várias anotações esquecidas. Tenta ler com calma, compreendendo bem cada frase formulada, mas as idéias lhe escapam da cabeça, pois outras mais assustadoras a tomam a todo o momento: não vai dar tempo, é muito material, não vou conseguir revisar, amanhã terei tal e qual compromisso, eu sempre me atraso, eu não vou conseguir! Os olhos correm toda a sala, encontram distrações que tomam seus pensamentos mais do aqueles que ele deveria se impor. As palavras lidas vêm e vão, não ficam, não marcam seu espaço nem comunicam suas intenções.

Ah! Não consigo! Assim ele desiste, deixa pra fazer depois que dormir quinze minutos, pra depois que assistir o filme, pra amanhã de manhã, pra quando chegar na faculdade, até que não tem opções. Então, se condena, briga consigo mesmo, se promete que amanhã será diferente. Um ímpeto lhe toma, como se agora ele pudesse fazer todas as coisas que deve fazer. Volta pra casa triste, mas determinado. Há um outro trabalho deste mesmo professor, fará duas vezes melhor! Farei o melhor, se repete.

Em casa, pega o livro, começa a ler, vai vencendo os parágrafos e os primeiros capítulos, mas a excitação o toma a cada nova idéia, conexões absurdas o levam a pensar em outros autores, a ficar inquieto, a sair da cadeira e ir tomar água e olhar pela janela de tão excitado com seus pensamentos. Pega um outro livro, que surgiu de uma dessas conexões repentinas, lê quinze páginas, fica entendiado. Volta ao texto anterior, suas idéias lhe dão medo, seu medo lhe dá preguiça, sua preguiça o leva para a frente da tv. A tv fala de música e de teatro, ele gostaria de experimentar aquilo, talvez pudesse fazê-lo muito bem, mas no canal concorrente está passando algo mais interessante por hora.

E ele, covarde, vai e volta de suas obrigações. Não tanto aquelas que outros lhe colocam, mas daqueles que ele se auto impõe. O tempo passa, irremediável e abrasivo, consumindo as possibilidades do covarde fazer algo. Chega a semana de apresentação do segundo trabalho e só um texto mal revisado e feito dois dias antes é apresentado. Novamente a sensação de incapacidade. O ódio de si mesmo por saber que mais uma vez ele será covarde e que amanhã, mesmo que tudo pareça diferente, tudo será igual. Ele ficará diante do espelho dizendo a si mesmo que pode muito, sabendo, contudo, que não fará nada. Ele se sentará diante do livro determinado em aprender, mas não o suficiente para persistir. Escutará uma palestra sobre um assunto pelo qual desejará se apronfudar, mas quarenta páginas de uma das oito referências bibliográficas indicadas não é nada mais que desperdício.

Covarde, assim lhe chamam aqueles que um dia foram seus amigos, pois nem a amistosidade com alguns poucos ele foi capaz de levar adiante, de persistir. Tudo sempre foi culpa do medo, do medo de não conseguir, mas o medo foi embora, agora ele tem certeza. Não conseguirá, a vida que lhe desculpe.

retência filosófica III

fevereiro 8, 2008 por

“Todo acerto pressupõe um erro anterior.”
Capedonte

Ufa!

novembro 19, 2007 por

Agora fico um pouco mais tranqüilo ao descobrir que os argumentos que eu uso para justificar o fato de estudar Filosofia e trabalhar com Programação não eram um mero devaneio da minha mente. Quem corrabora com muitas das coisas que já disse em mesa de bar e entrevista de trabalho é a New York University. :D

Para mim, mais claro que isso, impossível.

“Philosophy prepares students for a more reflective life, for advanced studies in the subject, as well as for professions that emphasize analytic thinking and argumentation, such as law, business, and programming.”

http://philosophy.fas.nyu.edu/page/undergrad

A Casa

outubro 29, 2007 por

Abra a mala e deixe as roupas sairem, para tomarem seus lugares no armário.

Limpe delicadamente os novos pertences, antigos para os que daqui se foram.

Olhe com cuidado o novo lar, um dia será velho e mais velho o deixarás.

Corra com ânimo em volta da casa, antes que conheças os vizinhos.

Não vá ao banheiro no primeiro dia, o vaso gosta de devorar desconhecidos.

Tome cuidado com os degraus, alguns são mais curtos do que parecem.

Antes do primeiro jantar, deixe que a casa lhe sirva seu prato especial.

Não olhe no espelho até que ele goste tanto de ti que minta sobre como tu és.

Arrume sempre as cercas dos quadros, para que os cavalos não andem pela sala.

Desligue a tevê dentro da primeira hora ou então ela desligará você.

Leia primeiro o último capítulo dos livros, para não ter surpresas desagradáveis no final.

No primeiro mês não limpe o lixo, seja simpático com os ratos – vizinhos presentes.

Ao escrever, leia em voz alta, as paredes não podem ler mas não são burras como as portas..

No inverno sempre feche as janelas a noite, ou as plantas entram em casa – gostam de calor.

Cuidado com o que diz na cozinha, a fechadura de sua porta perdeu o segredo há tempos.

Não use água sanitária na máquina de lavar, ela tem nariz sensível e o espirro é forte.

Peça licença à porta, dê bom dia à geladeira, há quem goste de respeito.

Nunca durma só, você pode sofrer um ataque da solidão ou virar companhia do tédio.

E, antes de ir embora, feche bem a casa mas não desligue as luzes — o absurdo também gosta de clareza.

A Casa - Siena - Por mim Gustavo BacK

A Mulher

outubro 5, 2007 por

(Situação com relação ao suposto plágio está esclarecida abaixo, nos comentários. De acordo com João Batista do Lago não se tratou de nada mais do que um erro de comunicação entre ele e o editor do site MHARIO LINCOLN DO BRASIL )

 

Texto feito para o Clube de Literaturas do
O Biscoito Fino e a Massa sobre Borges.

Ele estava sentado no banco, não fazia como outros que por ali paravam carregando consigo sempre um jornal. Estava ali com um volume de uma enciclopédia ganha há algumas semanas. Seus olhos percorriam loucamente os verbetes, procuravam relações desconexas, iam da física à lógica, desta para a matemática, do cálculo para a metafísica, da metafísica para a semiótica, da semiótica para a filosofia e da filosofia o olhar se dirigia às crianças que brincavam alguns metros à sua frente. O som das brincadeiras lhe agradava, parecia contrastar com o rigor e a seriedade daquela literatura que o atraia, e assim, de algum modo rigor e distração se equilibravam em sua mente.

No último mês permanecia por horas ali naquele banco, nada de especial. Talvez fosse apenas a algazarra infantil que o atraísse. Mas na verdade, este era um dos poucos locais no qual conseguia se concentrar sobre sua leitura. Se retornava à casa, lhe vinham as lembranças, os medos e as dores, então seu olhar sempre abandonava as páginas para se encontrar com um vazio que consumia seus pensamentos e o mundo a sua volta, um infinito vazio. Ele com suas centenas de verbetes lidos, filósofos compreendidos, livros escritos, viagens realizadas, não podia desvendar certos mistérios. Sentia-se com o controle daquilo que era o pensamento, as letras, as enciclopédias e a língua com a qual sangrava seus novos contos. Mas as mulheres, isso ele não podia compreender – seu casamento era a prova cabal. Havia uma muralha entre ele e elas. Mais do que isso, havia uma fortificação em torno da mulher – isto o angustiava.

Todos em algum momento da vida tendem a cometer certos atos dos quais se envergonharão, muitas vezes se deverá fazer tantas outras coisas, das quais também poderemos vir a nos envergonhar, para esconder esses pedaços de nosso passado. Ele não havia grandes segredos e os pequenos, uma hora ou outra, eram sempre revelados àqueles que lhe eram íntimos. Porém, as mulheres em seu ar de castidade, de apego à família, de amor incondicional escondiam qualquer coisa. Sob a força e a delicadeza estava uma astúcia, uma inteligência e um silêncio, que se não fosse por esta beleza feminina, manteria nós, homens, bastante distantes delas. A mulher que pacata aceitava as ordens do marido, as imposições do pai, aprendeu a lidar com o poder de forma sutil, se ela não podia argumentar no momento público, sugeria no silêncio do quarto; para impor-se, seduzia; quando era preciso controlar, manipulava, jogava com as situações; se segredos eram perigosos, dissimulava, iludia e mentia; enquanto um homem utilizava-se do corpo para oferecer dor e assim atingir seus fins, à mulher cabia usar o corpo diante à volúpia sem fim do sexo masculino. As mulheres o atraiam, mas os segredos escondidos atrás de um olhar feminino lhe angustiavam, as armadilhas de uma mulher lhe deixavam com medo.

A mulher é a Esfinge, pensava ele. Se havia um problema sobre a verdade que ele não conseguia lidar, era com este. Diante de uma mulher ele era apenas uma criança, não haviam enciclopédias ou gramáticas, geometrias, algebras ou cálculos, todas as referências bibliográficas foram riscadas até que as páginas transformaram-se em borrões.

As crianças haviam parado de brincar, uma a uma retornaram para suas casas. De mão dadas iam senhoras de sociedade, belas, dignas, religiosas e devotadas aos seus filhos e maridos. Ele as olhava e tentava compreender até que ponto poderiam chegar para manter a união familiar, a felicidade dos filhos ou a ignorância de um marido. Tentava compreender se suas mentes poderiam ser tão frias quanto algumas vezes viu sua mãe ser, queria saber quanto tempo elas conseguiam resistir sem revelar um segredo ou se os atos ficavam apagados no passado, até mesmo nos seus, para que não houvessem possibilidades de revelações.

Pensava tudo aquilo e estava inquieto. Decidiu que era hora de voltar para casa, já que tendo as crianças partido com suas brincadeiras, ficar aqui ou retornar àquele infinito vazio que vinha lhe tomando constantemente, seria o mesmo. Ao retornar à sua biblioteca para guardar a enciclopédia sentiu-se um pouco mal e sentou-se na escrivaninha. A mulher é o maior enigma do homem – ela é a verdade em si e a ausência de verdade para o homem. Não é a toa que verdade é um substântivo feminino. Um nome lhe veio à cabeça. Pegou um maço de folhas de papel e escreveu o nome da esfinge – Emma Zunz.

Latifúndios

setembro 27, 2007 por

No vasto território da vida, dentre latifúndios de desilusão, conquistei meu pedacinho de realidade, onde sussegado posso cultivar meus pensamentos e ter fartas colheitas de desespero.

Conclusão Homicida

setembro 21, 2007 por

Se solidão matasse, meu cérebro estaria enfeitando o teto de vermelho.

Saramago

setembro 17, 2007 por

Aos dezoito anos de idade me deparei com algo que iria me mudar de algumas formas. Numa segunda-feira, ao chegar do cursinho pré-vestibular, lá pelas onze horas da noite, zapeando pelos canais da TV aberta, me encontrei diante de um discurso que me fascinou. No centro da “Roda Viva”, na Cultura, estava um tal, até então desconhecido para mim, José Saramago. No dia seguinte eu começava a ler A Caverna e a me apaixonar pela obra de um dos mais prestigiados escritores da atualidade.

O que me faz parar diante de um livro deste velho senhor, já na casa dos oitenta, é a capacidade que ele tem de pôr os problemas e a vida nas palavras e fazer isso sem pudores, como todos nós deveríamos. Não se encontra ali a ingenuidade de alguém que crê num mundo que vai melhorando dia a dia, mas a firmeza do olhar que vê o homem e com isso se encanta e se desespera.

Dele, meu livro predileto é o Manual de Pintura e Caligrafia, mas este é um gosto muito pessoal para que eu possa recomendá-lo a alguém. Ficam outros mais encantadores e interessantes. Gosto muito, mas muito, de O Evangelho Segundo Jesus Cristo. Se eu me tornasse, verdadeiramente, um cristão, seria ao personagem deste romance que eu me voltaria em orações. Um outro, que fez deste português famoso em todo o mundo, é o Ensaio Sobre a Cegueira, que em breve deve virar um belo filme nas mãos do competente Fernando Meirelles.

Decidi escrever este texto enquanto lia a “palestra” de Saramago na ocasião do recebimento de seu Prêmio Nobel. A mim bastou o primeiro parágrafo, que como em todos os livros deste autor são bastante longos, para que eu começasse a escrever esta “divulgação”, se é que ele ainda precisa disso. Neste parágrafo ele relata um pouco a importância de seus avós, assim revela um pouco de sua história pessoal, tão interessante e intensa quanto seus romances. É claro, devo aqui recomendar a leitura deste texto, assim como a do blog de Fernando Meirelles na produção do Blindness, além de alguns vídeos.

Sugiro o primeiro parágrafo da Leitura no recebimento do Nobel.

Dois trechos da participação de Saramago no documentário Janela da Alma, aqui os links para a primeira e a segunda parte.

O blog de Fernando Meirelles chamado Blindness – Ensaio sobre a Cegueira.

Além de uma reportagem concedida por Saramago ao Jornal da Globo, também no youtube: primeira parte e segunda parte.

A última contribuição, tosca, é uma seleção de trechos do Manual de Pintura e Caligrafia que eu fiz algum tempo atrás.

Aproveitem.

Do Trabalho ou Da Tontura ou Das Escolhas

setembro 12, 2007 por

Ensaio de uma tarde de lucidez, que aqui publicada, pode me custar uma futura vaga de emprego.

A tontura vai me tomando. À minha frente dezenas de computadores com gente, que como eu, deve estar entrando em sua tontura. Aqui todos pensam, ou pensam que o fazem, mas na verdade, acho que todos nós apenas fazemos e não pensamos realmente. As telas pretas, as mãos frenéticas que só param de digitar para falar ao telefone ou usar o mouse, os olhares frios, os diversos tics, canecas de café e olhos vermelhos.

Este é um espaço de cativeiro. Fomos colocados aqui para produzir. Não há ninguém nos dando feno, nos guiando pelos pastos mais propícios, nenhum nos vêm tirar o pêlo ou o leite. Nossa capacidade de pensar, não pensando, é o que conta. Nossas mentes devem estar ocupadas, o trabalho é tão incisivo sobre elas que nos sentimos perdidos quando não há nada a ser feito: entramos no estado de tontura.

Ficar parado é perigoso. Não se deve ficar sem atividade, que tarefa colocar no registro das horas trabalhadas do mês durante aqueles míseros quinze minutos em que nos entregamos ao devaneio de pensar nossa condição de zumbi? Pensar é perigoso, perigoso porque a inatividade é sinal de incompetência, o pensamento, de rebeldia. Incompetência é trabalho mal feito, trabalho mal feito é baixa produtividade, que reduz o lucro, que te reduz a uma pequeno aumento na variação das estatísticas de desemprego.

Ambientalistas falam dos coitados dos animais que estão em cativeiro e que serão assassinados para alimentar outros homens. Nós aqui também, também estamos num cativeiro branco onde nos é “dada” a possibilidade de escolher entre entrar ou não. Ficamos aqui se queremos, como se o mundo nos desse muitas possibilidades de escolha: trabalhe ou morra. Há gente que defende os animais, deveriam incluir algumas atividades ditas “dignas” nas revindicações.

Não posso me enganar muito. Sou um escravo. Da grande multinacional, do governo, da sociedade. Discurso rebelde, rotulado e taxado de chavão. Sim, porque o chavão se repete todos os dias. Diga-me, você, não irá minimizar o navegador quando seu chefe aparecer na sala? Não irá dar desculpas para sua mulher que está trabalhando? Não vai iludir a si mesmo dizendo que ler é útil, que os blogs fazem você ficar mais culto, mais preparado para a nova entrevista de aceitação ao trabalho escravo?

PS: Ótimo post do blog Fogo nas Entranhas chamado Contramão que fala um pouco desses problemas com o trabalho.

Força para a Vida

agosto 22, 2007 por

Dê-me tuas mãos.
Se for necessário
Atravessar o Inferno,
Atravessaremos juntos.

Dê-me tuas mãos.
Se chorarmos
Pela vida perdida,
Nós choraremos juntos.

Com teu olhar, com tua mão,
Resisto a tudo, enfrento todos.
Com tua mão, com teu olhar,
Vou onde não foram outros.

Sem teu olhar, sem tua mão,
Continuarei neste inferno
Desistindo até que morra.
Sem tuas mãos. Sem teu olhar…

(Aos avós, pais, filhos, amantes ou amigos que no outro encontraram o poder para sobreviver àquelas coisas que são absurdas e extremas demais para serem chamadas de vida. Ela, a vida, sempre fica antes ou depois destas situações, destas “coisas”.)


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