Posts de Setembro, 2005

Pai, Filho

Setembro 26, 2005

Quantos de meus sonhos, filho meu, foram consumidos pelo tempo sem que eu tivesse oportunidade de levantar-me e correr atrás deles. Foram tantos, tão belos e grandiosos sonhos, quase todos ficaram pelo caminho da vida sem que eu dedicasse a eles o tempo devido, o amor necessário, a paciência exigida. Passei pela vida aproveitando as grandes coisas que ela me ofereceu: as pequenas alegrias. Extasiei meu ser em cada pequeno momento da vida, naquelas coisas mais simples, mais belas, as verdadeiramente válidas, as que nos fazem transcender as dores, os medos, as derrotas em prol de uma ressurreição diária, de um sorriso, de uma boa conversa à mesa de um bar com amigos sinceros, do abraço de quem se ama, de um pôr do sol, de uma caminhada pela praia ao anoitecer, de um gracejo de criança.

Foi em ti meu filho que tive o maior de meus sonhos realizados e as menores, conseqüentemente as mais sinceras, alegrias de minha vida. Durante longos anos foi ao teu futuro que dediquei todo aquele presente já passado. Em cada novo passo teu que se firmava no chão um sorriso se abria em mim e era como se eu fosse a síntese mais fiel do que se chama felicidade. Tuas novas palavras eram como que prêmios de um valor inestimável que eu recebia. Foste crescendo e os anos te dotaram de uma inteligência e alegria que a mim muito lembram na juventude, mas que a mim muito transcendem e isto me deixa intensamente feliz ainda hoje.

Os anos se passaram meu filho, filhote. A criança deu lugar ao homem que hoje me orgulha. As palavras débeis e o vocabulário escasso deram lugar a todo um conjunto de técnicas que usas muito bem articuladas e fazem de ti como que um menestrel a mostrar a quem quer que seja aquelas idéias que tens. Os passos cambaleantes foram substituídos por um andar firme, por um corpo pronto para a batalha que é a vida, para levar nosso sangue adiante. Hoje não precisas mais que eu te segure pelas mãos para que teus passos sejam dados.

Não quero, filhote, extender-me demais nesta carta que a ti entrego como o maior bem que posso te deixar por herança. Sabes que aquilo que acumulei ao longo da vida não vale tanto para mim, são apenas terras, dinheiro, alguns meios de se fazer mais dinheiro, para mim tudo isto é apenas uma forma de tornar a vida mais leve. O verdadeiro valor está dentro de nós, em como encaramos a vida. Foi isso que tentei te passar ao longo dos anos e espero que carregues contigo por toda vida.

Não busque nos outros, jamais, os motivos para aquilo que queres fazer. Faça as coisas porque desejas ou porque elas podem trazer algum benefício pra ti, ou pra alguém que amas, o que sempre dará no mesmo. Confie em ti para fazeres aquilo que desejas, saiba confiar naqueles que estão a tua volta, jamais cegamente. Estejas sempre atento às coisas do futuro, saiba prever e antever o que está por vir, mas nunca deixe de viver o teu presente. Nos momentos de fraqueza, de solidão, de medo, daquele sentimento de incapacidade que a todos nós abate num momento ou outro não hesites em procurar um amigo, entretanto estejas sempre consciente de que tudo só irá melhorar por ti, jamais pelos outros. Aprenda, também, filhote, a contar com a força do tempo, ele a tudo consome e tudo leva em sua maré; muitas vezes nos põe em desespero quando ansiamos demais por algo, mas também é ele que faz a tudo acontecer num momento ou outro.

Sinto-me como o elefante que vai se afastando da manada por perceber que seus passos não podem mais acompanhá-la. O tempo passou e me deixou assim, a mercê destes males que agora me consomem mas que não podem tirar a alegria de uma vida de amigos, sonhos e sorrisos. Em breve não estarei mais por aqui, por isso te deixo esta carta-testamento, quero que saibas que fostes uma de minhas maiores alegrias, quero que saibas que fui muito feliz nos caminhos que trilhei e que a tristeza, que também esteve comigo por muito tempo em vários momentos, apenas ajudou-me a dar ainda mais valor às horas de alegria. Por isso te peço que não chores num destes momentos inevitáveis que o tempo há de trazer pra nós, sorria apenas sorria porquê eu estarei sorrindo. Não há com o que chorar quando se soube viver a vida, por isso seja forte. Olhe pra frente e, como eu, sempre viva. Viva!

(obs: este texto estava guardado há dois meses sem ser concluído, neste sábado parei em frente ao pc e fiz os dois últimos parágrafos além de dar uma primeira revisada. Li ele para meu pai. Até aí nada demais, o engraçado foi a coincidência em assistir o filme “Invasões Barbaras”, que minha namorada havia escolhido, na mesma noite. Senti como que meu texto fosse parte daquela história. Fica meio estranho ler esse “testamento” agora, tenho a sensação de que ele foi baseado no filme, mas fica aí, foi mais uma dessas coisas engraçadas que nos acontecem no dia-dia.)

Holocausto Infinito I

Setembro 18, 2005

Sorria, mesmo que seja difícil.
Sorria meu amigo, sorria comigo.
Estamos livres, após cinco anos.
Não somos homens, mas espectros;
Ao menos hoje, espectros livres.
Os grilhões romperam. Olhe o sol!
O sol queima nosssas peles. Luz!
Quanta saudade desta claridade…
Ah, meu amigo, a ferida é imensa
Contudo a esperança há de sarar.
Vamos amigo! Procuremos crianças!
Após tanto tempo como um espectro
O que desejo é um sorriso infantil.
Um sorriso para fazer-me gente!

(Obs: mais um poema sob a marca de Holocausto Infinito.)

Egocentrismo II

Setembro 14, 2005

Bom… agora são exatamente 4horas e quinze minutos, não, não é da tarde, mas da madrugada mesmo. Neste exato momento estou no meu trabalho, dando um tempo pra cabeça e aproveitando pra escrever no blog. Estou no trabalho dando um tempo pra cabeça as quatro da manhã? Não… estou trabalhando desde as 10:30 da manhã de ontem. Ah! Detalhe, de domingo para segunda trabalhei 24horas consecutivas, hoje com certeza chego a esse número de horas trabalhadas brincando. devo ir para umas 28 consecutivas. Coisa de louco? Sim… espero que um louco reconhecido pelo trabalho, mas isso… sobre isso não tenho certezas pra responder qualquer coisa. Alias, agora não é um bom momento pra escrever ou tentar pensar em recompensas. Estou ganhando a hora-extra, nada de muito emocionante, mas já é algum reconhecimento por essas noites perdidas. Fujo com esse texto do objetivo do blog, mas como não tem ninguem no meu IM agora pra mim reclamar da vida, faço isso aqui! Como eu gostaria de ser só mais um estudante sustentado pelos pais cursando algo em humanas. Contudo, não é isso que me cabe hoje, vamos fazer o melhor com o que tenho nas mãos… fazer o trabalho bem feito! Adelante!!!!

(Mas que bela porcaria ficou esse texto! Santo Deus!!! Chega de experiências literárias durante madrugadas de trabalho.)

Florianópolis

Setembro 10, 2005

Florianópolis está cinza.
O Céu escuro, coberto de nuvens.
Densas nuvens sem chuva;
Gotas densas sem chão.

Florianópolis está cinza.
Não mais cinza que eu.
Umas nuvens acima de mim,
Não há como a luz passar.

Florianópolis está cinza.
Não, triste não; nem alegre.
Apenas cinza. Serena, cinza.
Cinza, assim… como as vezes somos.

(A)njo

Setembro 4, 2005

Estou preso a um mundo estranho.
Estranho mundo de tola liberdade.
Liberdade parcial, que engana, falsa;
Faz-me acreditar que sou livre, e prende.

Estou acorrentado a um mundo feio.
Mundo feio com suas guerras e dores.
Ainda assim, me dizem que é belo, lindo;
Querem que eu creia no que não acreditam.

Estou condenado a um futuro sujo.
Cheio de mentiras, ilusões, desgostos.
Uma sociedade a minha volta impõe;
De cada imposição tiram-me um pedaço.

Estou preso, condenado, acorrentado
Por coisas que desacredito, desconfio,
Que não quero pra mim, não quero ver.
Estou no cárcere, mas não num todo.

Sou consumido por um novo sonho.
Um olhar que não posso definir
Vêm de longe, com asas, até mim.
Verde, azul, sereno, devastador.

Sou carregado por um desejo.
Agarro-me ao corpo, fico envolto
Por asas olhares, bocas, mãos
Disso que não é sonho, mas anjo.

Sou seduzido por isso que liberta
Num mundo onde havia somente prisão;
Acalentado por curvas femininas
Que, se não acabam, aliviam a desilusão.