Posts de Novembro, 2005

Adelante I

Novembro 22, 2005

Botei um par de asas negras às costas, uma máscara branca sobre a face, luvas sujas às mãos, tirei os sapatos, o relógio, e me pus a fugir como um louco. Voei o mais longe e alto, distanciei-me de mim mesmo tanto quanto possível, em direção ao caos, a um inferno branco, tingindo com a neve, acalantado do frio pelo perpétuo arder de longas chamas.

Viajei, muito viajei. Sempre Adelante, sempre. Não pude aceitar o que eu era, foi impossível continuar convivendo com aquilo: passividade, compaixão demasiada, timidez, medo – dos outros e de mim mesmo -, horror aos desafios; uma fraqueza de personalidade tão grande, tão absurda… por isso pus-me asas.

Bati com muita força e habilidade as asas que me impus. Por longos anos, terras novas e trevas desconhecidas, eu surpreendi a mim mesmo com o novo ímpeto que em meu peito se instaurava. Fugi para, ao sabor do tempo e ao calor destes tantos infernos que vivi, forjar uma nova alma.

Consagrei meu novo ser nestas longas chamas de um inferno branco. Orei a deuses pagões e realizei rituais profanos, marquei minha pele com sinais místicos e neguei sete vezes as forças que não são as minhas. Pactuei com um deus e três demônios para ter uma vida de prazeres, dores e humanidade.

Sou os contrastes: o horror e a paixão, o medo e a segurança, a dor e o prazer, a paz e o terror; sou a incoerência de face branca, asas negras e mãos sujas. Sigo atrás de histórias humanas lindas ou feias, cômicas ou trágicas, crentes ou cépticas. Sigo, eu Adelante, sempre Adelante.

(Adelante é um personagem que saiu de um poema numa noite muito sinistra. Este foi o último “texto” que fiz dele, os outros são poemas. Pretendo ao longo desse mês colocar outros dois escritos de Adelante aqui.)

Citações – Manual de Pintura e Caligrafia

Novembro 3, 2005

Bom… como não ando me considerando, e os outros também, um bom “blogger” – já que de escritor eu creio não ter gabarito pra me autodenominar – vão aqui alguns trechos de alguém cuja genialidade não pode ser colocada em questão, Saramago. Ando fascinado pelo Manual de Pintura e Caligrafia, li três vezes esse ano. Gosto muito da forma descompromissada com que o romance vai se desenrolando, gosto dos questionamentos, dos raciocínios de Saramago, gosto da pintura e também das viagens à Itália. Vão aqui os trechos:

“Sempre fico espantado diante da liberdade das mulheres. Olhamo-las como seres subalternos, divertimo-nos com as suas futilidades, troçamos quando são desastradas, e cada uma delas é capaz de subitamente nos surpreender, pondo diante de nós extensíssimas campinas de liberdade, como se no rebaixo de sua servidão, de uma obediência que a si mesma parece buscar-se, levantassem as muralhas de uma independência agreste e sem limites. Diante desses muros, nós, que tudo julgávamos saber do ser menor que viemos domesticando ou achámos domesticado, ficamos de braços caídos, inábeis e assustados: o cãozinho de regaço que com tanta boa vontade se rebolava no chão, de costas, mostrando o ventre, põe-se de pé num salto, com os membros trémulos de ira, e os seus olhos são de repente alheios a nós, e fundos, vagos, ironicamente indiferentes. Quando os poetas românticos diziam (ou dizem ainda) que a mulher é uma esfinge, acertam, abençoados sejam. A mulher é a esfinge que teve de ser porque o homem se arrogou do senhorio, da ciência, do tudo saber, do poder tudo. Mas é tanta a fatuidade do homem, que à mulher bastou levantar em silêncio os muros da sua recusa final, para que ele, deitado à sombra, como se deitado estivesse sobe uma penumbra de pálpebras obedientes, pudesse dizer, convicto: ‘Não há nada para além destas paredes.’”

“Digo coisas que todos dizem, mas este feltro pisado e repisado que é a cultura, que é a ideologia, que é também isso a que chamamos civilização, compõe-se de mil e um pequenos estilhaços, que são heranças, vozes, superstições que foram e assim permanecem, convicções que esse nome se dão e tanto lhes basta.”

“Não serei capaz de ir mais longe, por enquanto, mas o sinal dessa incapacidade, o risco de unha que o marca, é já o primeiro passo, ainda que outros não continuem: o que distingue o passo único de um primeiro passo é apenas a paciência que houve, ou não houve, para esperar o segundo.”

“As vontades juntas dos habitantes formam, sem que eles se apercebam, uma vontade diferente que passa a governá-los e que cuidadosamente os vigia.”

“Nascer, viver, morrer são verdades universais e sequência natural. Se quisermos transformá-las em verdade pessoal e em sequência cultural, teremos de escrever muito mais do que os três verbos por aquela ordem dispostos, e admitir que, entre os dois extremos de nada e nada, o viver possa conter alguns nascimentos e mortes, não apenas alheios que de algum modo nos toquem ou firam, mas outros nossos”