Posts de Agosto, 2006

Carne

Agosto 25, 2006

Inale, aspire, transpire
Odores que são só nossos
Tremores que arrebatam
Desejos ainda insaciados

Abra teu corpo para o meu
Receba essa minha loucura
Que acalenta também as tuas
Neste estado sem pudores

Deixe teus poros, tua mente
Teus secretos recantos exalarem
O desejo de serem consumidos
Em convulsões de carne e espírito

Sinta o sabor dos nossos corpos
Unidos pelo frenético anseio
De ter um suspiro mais intenso
Ser o mais intenso dos suspiros

Obs: publicado no Idéias Mutantes em Março, veja o post neste link.

Caixa, Oração e Escombros

Agosto 22, 2006

Sentou-se no canto do ginásio. Tirou da mochila uma pequena caixa que olhou por um longo instante até que um estrondo a despertou e fez com que a garota abrisse delicadamente a tampa de metal. Havia ali duas cartas, algumas fotos espalhadas, três ou quatro pedaços de tecido, um caderno de anotações repleto de orações além de uma fita de cabelo.

Colocou a caixa sobre as pernas e olhou discretamente em volta para ter certeza que ninguém a observava com demasiada atenção. Tirou as cartas, em seguida o caderno de orações, para então se deter na foto de si mesma três meses atrás. Naquele dia ela e algumas amigas da escola haviam saído para acampar em companhia dos pais de uma delas; a noite fora longa, cheia de risos, histórias, sonhos e petiscos. Ela deteve-se um pouco mais sobre a foto e prestou atenção à imagem de sua melhor amiga. Olhos negros, cabelos longos, um rosto que não era o padrão de beleza do qual aquelas amigas sempre ouviram falar, mas que era em si belo, singelo e passível do carinho de um bom homem. Lembrou de quando as duas se conheceram na escola, dos planos que tinham de viajar, conhecer novas culturas, terem suas famílias morando no mesmo bairro, de um dia irem a um país estrangeiro e terem, ao menos uma vez na vida, os cabelos ao vento presos apenas por uma fita de cabelo vermelha.

Já não era possível controlar-se. O choro chegou sem pedir licença e lhe tomou. Silencioso, calmo, nostálgico, contudo recente demais para que houvesse um sorriso depois, um “como foi bom”. A garota só se perguntava “como pôde?” Puxou outra foto e então fechou a caixa. Ali, naquele pedaço de papel colorido, estavam seus pais. A mãe de trinta e oito anos, o irmão mais novo, o pai e o avô. Ouviu outro estrondo, mas seu olhar não se desviou da foto. A imagem era uma nova forma de contato, mais presente que a simples memória, como se a garota precisasse de algo no mundo exterior para que a existência daquelas pessoas que a amaram pudesse se fazer de alguma maneira.

Abriu novamente a caixa, nela depositou a foto com as amigas e as cartas; ficou em suas mãos a foto familiar e o caderno de orações. Guardou a caixa, soltou os cabelos, ajeitou-se no banco de forma um pouco mais confortável e suspirou profundamente apenas esperando que dessa vez conseguisse controlar o choro. Serenamente folheou o caderno em busca de uma oração. Não se lembrava muito bem do nome, pois aquela seu avô quase lhe obrigara a copiar visto que ela não aceitava ter de rezar tal prece um dia, mesmo que esse momento pudesse estar muito longe como pensava ou muito perto como a vida veio a lhe mostrar.

Oração aos Mortos. Era esta a oração, era esse o momento que ela jamais imaginou, por ser doloroso demais para ser concebido por um coração que era feliz. Olhou pro alto, mas só havia o teto do ginásio, Deus não estava lá. Onde estava Deus? Brigando com outros, como faziam os homens lá fora do ginásio? Estava rindo dos homens? Ou apenas testando sua fé? Onde estava seu deus, lá estavam aqueles que ela ama.

Pronunciou com voz angustiada o nome de seu avô, pai, mãe e irmão. Seus olhos buscaram Deus acima de si novamente, mas só encontraram o telhado do ginásio. Iniciou a oração, mas seu peito não era sincero nas palavras que dizia, ela só conseguia pensar “porque eu tive de ficar?”

Concluída a prece, esgotadas as lágrimas, não havia mais Deus no restante daquela noite, mas apenas demônios, tiros, foguetes e morte. Seu coração silenciara, mas no ginásio muito choro ainda seria derramado, pois a noite apenas começava. Deitou-se no colchonete, usou a mochila como travesseiro e dormiu.

No dia seguinte ela não estava mais no ginásio. A noite fora de sonhos muito tristes: dor, medo, raiva, solidão. Tudo que o dia lhe tinha trago a noite fazia questão de reforçar. A vida parecia muito frágil para que pudesse ser vivida plenamente, Deus havia se tornado muito distante para que as orações que ela pronunciasse pudessem alcançá-lo. Teve vontade de partir, mas não precisou — fizeram isso por ela.

Na manhã seguinte ela não estava mais no ginásio. Entre os escombros havia apenas a mochila, o caderno e as foto. Ao lado dos objetos não estava mais ela, mas somente mais um número para as estatísticas de mortos de guerra.

Impérios do Terror

Agosto 10, 2006

Muitos brasileiros se acordaram hoje com o Bom Dia Brasil noticiando a prisão de 21 possíveis terroristas que iriam realizar um grande ataque a aviões comerciais que fazem o trajeto Inglaterra/EUA. Para quem estava atento, nesse mesmo jornal era noticiado um cessar fogo israelense contra o Líbano para que possa haver uma negociação diplomática.

Ora, não é engraçado que depois de quase um mês de ataques ao Líbano ocorra então uma tentativa diplomática por parte de Israel para que cesse a agressão aos libaneses? Depois de centenas de mortos no Líbano – sim, porque os libaneses também são pessoas e também morrem, ao contrário do que muitos jornais parecem querer nos passar – os israelenses decidem fazer uma trégua. Bastante diplomáticos eles, só falta os bonzinhos enviarem alguns rabinos, senhores de uma nova concepção místico-teológica judaíca, para reviverem as crianças mortas do lado inimigo… Será que Israel não tem lá um plano por detrás disso, desta trégua sincronizada a um outro fato político de grande relevância? Será que depois de tantos pedidos de trégua eles decidem fazê-lo, coincidentemente – pois é claro, isso é uma grande coincidência, imaginem! – na data em que a Europa é ameaçada por um novo ataque terrorista?

Levanto aqui a possibilidade, lá bem provável, de que esse ataque, o terrorista, ah! o islâmico, é uma mera articulação do eixo EUA x Inglaterra x Israel para reforçarem uma possível negociação diplomática entre Israel e Líbano a favor do primeiro? É claro, podemos considerar essa hipótese “conspiratória” demais, contudo será que o desmantelamento do ataque terrorista aos aviões e a negociação diplomática aberta pelos terroristas israelenses acontecerem exatamente no mesmo dia é mera coincidência? As evidências de um atentado islâmico no WTC são claras, indiscutíveis, entretanto há quem diga, engenheiros gabaritados do MIT, que os dois prédios só cairam porque houve uma demolição controlada! Demolição controlada? Sim, procure no Google por demolição controlada WTC. As formas de se ter poder, ou controlá-lo, vão muito além daquilo que está explícito nos tratados internacionais ou naquilo que a mídia anuncia, hoje, por exemplo, vemos se estabilizar uma nova política de poder internacional baseada no terrorismo. Polítca esta adotada firmemente por EUA x Reino Unido e Israel, os Impérios do Terror.

A causa Palestina está destinada, não digo ao fracasso, mas à morte. Estados Unidos e Reino Unido defendem Israel com garras e tomahawks, por quê? Não será pelo capital judaíco depositado nesses países? Pelo poder capital desse povo? Israel será defendida até que ponto pelo capitalismo? As barbaridades que estão sendo feitas – agora com a justificação de novos ataques terroristas islâmicos – a mídia noticia mas nunca diretamente ou, ao menos, imparcialmente como no mínimo deveria ser. Pois, tentem adivinhar, quem controla a mídia global, desde o cinema norte-americano até às sucursais da rede globo? Que povo, hein?!

Vejam bem, não sou contra os judeus, não quero ser anti-semita, contudo, as vezes, parece que este próprio povo procura esse sentimento de antagonismo por parte dos outros, se não acha trata de desenvolvê-lo. Eles já sofreram muito, há de se considerar, mas o que leva um povo tão sofrido a impor tão terríveis flagelos a outros? O que faz com que um dos principais produtos de exportação de Israel seja os armamentos bélicos? Medo por um novo holocausto? Vontade de impor a outros povos aquilo que sofreram? Complexas questões para eu possa discutir aqui, mas reflitam… reflitam sobre a problemática, não que uma atitude isolada mude essas difícies situações, mas para que possamos exigir maior trasnparência da mída, maior força do nosso governo para tratar de forma justa essas questões, ao menos naquilo que lhe é possível.

Voltando às notícias do dia de hoje, 10 de Agosto de 2006, não será que o terrorismo é só uma forma de certos governos implantarem políticas de invasão aos povos árabes? Não estarão o EUA, Israel, Inglaterra promovendo o terror? Não serão eles os verdadeiros terroristas, os Impérios do Terror? O que as crianças libanesas fizeram de errado? Viver ao lado de Israel e não estarem dentro de seu contexto de poder? Quem será a próxima vítima? Do jeito que as coisas vão em breve teremos um bando de ianques botando os pés na Amazônia com a justificativa que devem defender a mata do perigo que é o governo brasileiro não preservá-la, que deve haver uma soberania da natureza. Vá lá… nem vale a pena divagar tanto, basta olharmos para Cuba, porque os americanos… bom, os americanos já estão de prontidão para o bote!

Obs:

Links para complementar o texto

Imagens das vítimas do terrorismo (imagens muito fortes)

Notíca da prisão dos terroristas islâmicos

Notícia do cessar fogo israelense

Blog: A Basel Irmad Termos, pela vida que não foi

Blog: Economia da Violência

Místico

Agosto 4, 2006

Sinto o último suspiro da tarde escapando entre meus dedos. Mão fechada, testa franzida, olho o horizonte e me nego a perder os raios de sol deste dia. O calor vespertino vai dando espaço para a elegante e fria luminosidade de uma lua cheia. Como não posso alterar o passo constante dos astros, altero meu humor, agora melancólico pelo dia ido, mas feliz pela noite serena que se chega.

Pés que seguem o cruzeiro do sul me levam novamente para casa. Lá encontrarei as justificações de um sonho realizado. Sinto o vento que trás boas novas de um tempo qualquer que agora não posso alcançar ou prever, consigo compreender apenas que há algo, lá adiante, tão bom quanto estes dias que venho vivendo. Se a Felicidade qualquer dia deitou-se com um homem, agora ela está de mãos dadas comigo.

Não há ciência, razão, método, raciocínio, lógica ou discurso que possa explicar o grande mistério que é viver. Há abismos de ignorância e montanhas de humildade a serem superados até que, enfim, o homem compreenda o que é a vida. Enquanto minha mente não pode galgar os degraus que me esclarecerão a verdade última, me contento com muito mais: viver o mistério da existência.