Posts de Setembro, 2006

La Serenissima

Setembro 21, 2006

Ele pagou relativamente bem ao responsável pelo museo daquela tarde para que pudesse estar parado sobre a ponte. Há exatos doze anos ele estivera ali, não na ponte, mas passando sob ela, numa gondola, abraçado à sua antiga namorada. Ainda era inverno e eles vestiam casacos pesados que distanciavam o calor das suas peles, mas não de suas paixões. Aos vinte e dois anos nada poderia lhe ter sido melhor do que viver aquele amor e todas as aventuras que encontrou por terras estrangeiras, havia mais de uma década que tudo aquilo ocorrera e as coisas eram já bem diferentes: não podia ter a companhia dela, portanto as gondoloas seriam demasiadamente dolorosas, além de ridículas quando um homem pesaroso vai nelas só.

O gosto do vinho que ainda percorria céu da boca, gengivas e línuga lhe despertava o paladar, mas ele foi cedendo espaço à memória do creme que ela passava na boca naquelas tardes de inverno italiano. O doce do morango aliado à textura de seus lábios era o maior manjar que ele poderia ter provado naqueles meses em que ficou numa terra que se destaca tanto pelo sabor e requinte de seus pratos. Viu-se tempos atrás passando por sob a ponte; viu os sorrisos, os carinhos, os gestos e sentia o que havia de mais precioso naquela época: o amor.

Colocou a mão no bolso do paletó e trouxe nela um pequena trouxa de pano que foi abrindo delicadamente até revelar uma aliança. Tocou com o indicador as bordas do anel e sentiu apenas o frio do metal e a dureza de suas propriedades químicas já desprovidas de outras características tão mais importantes: as passionais.

Apertou a aliança entre as duas mãos e fraquejou, não queria livrar-se da lembrança, entretanto desejava acabar, mais que tudo, com a saudade. Apoiou os cotovelos sobre o parapeito, fez o gesto que tanto planejara: deixou o anel escorrer entre seus dedos e ir em direção às águas para um descanso profundo no único solo daquela cidade suspensa que ele considera eterna, senão sobre suas palafitas mas na memória daqueles que lá estiveram e que quererão torná-la tão eterna quanto suas próprias vivências lá. Sob aquela ponte e sobre o único solo que a Veneza cabe, ele depositou a esperança de que houvesse um eterno retorno e dentro de um tempo incalculável pudesse viver aquele amor efêmero novamente, mesmo com a dor destes momentos que lhe machucavam.

Andou indefinidamente pela cidade até que traído pelo cansaço sentou-se nas escadarias do Palazzo Ducale. Àquela hora ninguém lhe incomodaria, Veneza era uma outra que ele até então não conhecia, a noite ela era ainda mais Sereníssima. Ele estranhava os dedos sem aliança, mas a solidão já lhe era companheira; desde que ela havia abandonado o casamento por um outro homem, tudo que ele fazia era andar por lugares que desconhecia buscando em outra mulher os olhos daquela que lhe renegou. Nunca conseguiu encontrar, sua andança durante esse tempo sempre tivera um destino, já era hora de um novo tempo: andar pelo mundo por andar.

Como andarilho que seu coração agora se sentia, com o passar do tempo não haveria mais espaço para a dor, mas somente para a nostalgia e a perspectiva de uma manhã de Sol. Enquanto se levantava para voltar ao hotel lembrou-se de Nietzsche e do andarilho que encontrava, nas montanhas com suas musas, dias de uma claridade muito mais profunda, cheia de serenidade diante da vida e não este desespero que ele tanto sentiu nos dois últimos anos de solidão. Talvez ele devesse continuar andando, não em busca de uma nova paixão, mas de si mesmo.

Enquanto rodava pela cidade seu espanto ia aumentando com o encantamento que sempre se renovava nele ao se deparar com as praças, igrejas, palácios e pontes de Veneza. Parecia haver beleza demasiada ali, o cheiro da cidade lhe intorpecia, os sons e o reflexo das luzes na água lhe encantavam. Doeu em seu peito pensar que algum dia tudo aquilo poderia ir abaixo, toda aquela glória virar mera lembrança como esta que ele carregava consigo. Ainda assim haveria algo, o que passou e valeu: Veneza valeria ainda por séculos, sua antiga esposa lhe seria um amor válido por anos ainda.

Achou que deveria mudar de amor, não buscar, mas andar à mercê da sorte, dos caprichos de Afrodite. Seus olhos brilharam pela nova possibilidade, mas a lágrima pelo que poderia deixar lhe denunciou. Poderia ele alcançar a serenidade em sua vida? Esperar os amores e viver para eles sem desespero? Poderia esquecer aquela fabulosa paixão em prol de uma outra, não melhor, mas nova? Seguiu para o hotel e já trilhava os caminhos de uma nova vida, com novo ânimo e uma nova esperança: Veneza ainda sobreviveria alguns anos para que novos amores descobrissem com ele a beleza que só encontrou na Sereníssima, a mais bela de suas paixões.

Espaços

Setembro 8, 2006

Acordo na madrugada, suando frio, com mãos trêmulas, pensamentos vacilantes. Olho em direção ao relógio e não foram nem quarenta minutos de sono. Levanto, sigo para a cozinha. O copo de água não sacia minha sede, nem o queijo a fome. Volto para a cama, procuro pelo sono que foge de mim incessantemente. Vou até a sala, pego uma caneta e tento escrever algo, mas tudo que consigo é repetir um nome vinte vezes numa mesma folha branca. Meus braços tremem com o frio que faz nessa meia madrugada que já passou, minha cabeça dói, meus olhos estranham qualquer luz um pouco mais intensa: televisão nem pensar. Ligo o rádio. Toca Pero te Extraño, a voz de Boccelli adentra pela casa e vai ocupando os espaços. Meus olhos se fecham para que tua imagem preencha novamente a minha vida, ainda que virtualmente. Contudo, a voz de Boccelli se vai, sua imagem também, assim como você, há três meses, se foi. Tudo com que fico é esta solidão e esta saudade que espaços não preenchem, só aumentam o vazio.

X é Justo?

Setembro 4, 2006

O que dizer de alguém que num dia ajuda um necessitado completamente desconhecido com cinqüenta reais e no outro dia nega pão para outra pessoa, também um desconhecido necessitado?

Podemos chamar tal indivíduo de hipócrita, mau, incoerente? Ele mesmo não se achou tudo isso enquanto fazia sua negação à segunda pessoa que lhe pedia?

Pois bem, que se coloquem os detalhes das situações: a primeira pessoa a quem o invíduo X deu os cinqüenta reais foi um senhor em seus sessenta anos de idade que estacionava uma carroça próximo ao apartamento onde X mora para pegar um sofá velho. O senhor tinha as mãos calejadas pelo trabalho, usava um blaiser velho, surrado, tinha o rosto cheio de rugas e a pele marcada pelo sol e pela labuta. Ele não pediu ajuda qualquer, queria apenas saber se X conhecia o vizinho. Ao ser perguntado sobre como andava o trabalho o velho senhor queixou-se, ainda que com um sorriso no rosto, “trabalhei a manhã toda carregando aterro pra ganhar quinze reais, mas foi fiado”. X não via outra possibilidade que senão sacar a carteira e entregar singelamente ao senhor uma nota de cinqüenta reais. Não que aquilo fosse pouco dinehiro para X, ao contrário, mas ele sabia que faria mais diferença na vida do velho senhor naquele dia do que poderia fazer na sua. O senhor recebeu a nota, agradeceu sem jeito mas sem negar o dinheiro — com toda a dignidade pertinente a quem precisa mas gostaria de recusar.

Já o segundo indivíduo chegou-se para X às nove horas da noite quando ele, X, estava voltando de uma pequena mercearia com pão, refrigerante e chocolate. Vinha descalço atravessando a rua para abordar X. Seu olhar não era de quem tinha fome, estava com frio, ou medo de algo; o segundo indivíduo parecia querer algo a mais: a carteira, a vida de X, o que ele tinha, sua roupa, seu trabalho. X ficou sem ação, só respondeu “não tenho dinheiro aqui, gastei tudo ali na mercearia”, mentira. O rapaz insistiu: “dá um trocado aí, qualquer coisa pra eu comprar um lance ali”, X sem entender que lance seria, insistiu que não tinha nenhum dinheiro. A coisa ficava meio tensa, X estava num local com algum movimento mas ainda assim havia medo nele. O rapaz não possuia nem a tranquilidade nem o trabalho que estavam na face do velho senhor, ao contrário, sua face era arrogante e pareceu a X que exigia dele aquele pão, qualquer coisa, mas que teria de tirar algo de X.

Agora, eis o X na questão. Será ele mau por fazer dois julgamentos distintos de uma mesma situação? Não estará o rapaz muito próximo do senhor? Se o senhor merecia uma ajuda “generosa” não merecia o outro rapaz uma ajuda qualquer? Será que o medo dos nossos dias não fez X se negar? Ou terá sido a postura arrogante do outro lado?

Depois da negação ao rapaz, X chegou em casa, colocou as compras sobre a mesa da cozinha e foi para o seu quarto. Deitou-se na cama e se perguntou se ele estava errado, se deveria ter dado o saco com pão, mesmo com a arrogância do rapaz, mesmo com o medo dele! Lembrou-se de si mesmo e dos vícios que tinha, viu o quanto estava próximo em ser aquilo que o outro rapaz era. Se por alguns motivos ele tivesse um momento na vida menos oportuno, não estaria ali, pedindo comida? Ou será que todos temos oportunidade de fazermos o que achamos bom e, logo, o senhor acertava enquanto lutava contra a vida enquanto o rapaz fugia dela — já que nele não parecia haver a dignidade do trabalho e nem hombridade?

E qual dentre os dois, o senhor e o rapaz, já havia negado ajuda a alguém? Quais deles teriam cometidos males muitos piores que este a que X se condenava? Não deverá existir qualquer tipo de mérito a mais no senhor que se empenha pelo pão e não exige que os outros lhe possibilitem aquilo que ele sabe ter de buscar? X se perguntava se havia sido justo. Pensou enquanto passava manteiga no pão, sentiu um pouco de nojo na primeira mordida, lhe doía na consciência a negação que havia feito. A noite foi longa, as duas horas da madrugada X desistiu de se julgar. Levou pra cama, durante a oração que fazia a um Deus que sabia não existir, a seguinte máxima “Que num momento de dificuldade, dor ou fome, eu encontre alguém tal como a mim mesmo: se eu merecer, que tenha a recompensa; caso contrário que tenha, mais uma vez, a oportunidade e a hombridade de fazer-me melhor.”

Referência…

Setembro 1, 2006

Bom, meu último post já era só uma referência, uma reapresentação de um texto que saiu lá no Idéia Mutantes, o Carne, hoje faço quase a mesma coisa, só que indicando o excelente post da Rafa chamado Aniversário Sem Festa. Achei o texto fabuloso e ele se encaixa muito bem nesse meu “Holocausto Infinito“…

http://www.ideiasmutantes.com.br/archives/2006/09/aniversario_sem.html 

Boa leitura!