No vasto território da vida, dentre latifúndios de desilusão, conquistei meu pedacinho de realidade, onde sussegado posso cultivar meus pensamentos e ter fartas colheitas de desespero.
Posts de Setembro, 2007
Latifúndios
Setembro 27, 2007Conclusão Homicida
Setembro 21, 2007Se solidão matasse, meu cérebro estaria enfeitando o teto de vermelho.
Saramago
Setembro 17, 2007Aos dezoito anos de idade me deparei com algo que iria me mudar de algumas formas. Numa segunda-feira, ao chegar do cursinho pré-vestibular, lá pelas onze horas da noite, zapeando pelos canais da TV aberta, me encontrei diante de um discurso que me fascinou. No centro da “Roda Viva”, na Cultura, estava um tal, até então desconhecido para mim, José Saramago. No dia seguinte eu começava a ler A Caverna e a me apaixonar pela obra de um dos mais prestigiados escritores da atualidade.
O que me faz parar diante de um livro deste velho senhor, já na casa dos oitenta, é a capacidade que ele tem de pôr os problemas e a vida nas palavras e fazer isso sem pudores, como todos nós deveríamos. Não se encontra ali a ingenuidade de alguém que crê num mundo que vai melhorando dia a dia, mas a firmeza do olhar que vê o homem e com isso se encanta e se desespera.
Dele, meu livro predileto é o Manual de Pintura e Caligrafia, mas este é um gosto muito pessoal para que eu possa recomendá-lo a alguém. Ficam outros mais encantadores e interessantes. Gosto muito, mas muito, de O Evangelho Segundo Jesus Cristo. Se eu me tornasse, verdadeiramente, um cristão, seria ao personagem deste romance que eu me voltaria em orações. Um outro, que fez deste português famoso em todo o mundo, é o Ensaio Sobre a Cegueira, que em breve deve virar um belo filme nas mãos do competente Fernando Meirelles.
Decidi escrever este texto enquanto lia a “palestra” de Saramago na ocasião do recebimento de seu Prêmio Nobel. A mim bastou o primeiro parágrafo, que como em todos os livros deste autor são bastante longos, para que eu começasse a escrever esta “divulgação”, se é que ele ainda precisa disso. Neste parágrafo ele relata um pouco a importância de seus avós, assim revela um pouco de sua história pessoal, tão interessante e intensa quanto seus romances. É claro, devo aqui recomendar a leitura deste texto, assim como a do blog de Fernando Meirelles na produção do Blindness, além de alguns vídeos.
Sugiro o primeiro parágrafo da Leitura no recebimento do Nobel.
Dois trechos da participação de Saramago no documentário Janela da Alma, aqui os links para a primeira e a segunda parte.
O blog de Fernando Meirelles chamado Blindness – Ensaio sobre a Cegueira.
Além de uma reportagem concedida por Saramago ao Jornal da Globo, também no youtube: primeira parte e segunda parte.
A última contribuição, tosca, é uma seleção de trechos do Manual de Pintura e Caligrafia que eu fiz algum tempo atrás.
Aproveitem.
Do Trabalho ou Da Tontura ou Das Escolhas
Setembro 12, 2007Ensaio de uma tarde de lucidez, que aqui publicada, pode me custar uma futura vaga de emprego.
A tontura vai me tomando. À minha frente dezenas de computadores com gente, que como eu, deve estar entrando em sua tontura. Aqui todos pensam, ou pensam que o fazem, mas na verdade, acho que todos nós apenas fazemos e não pensamos realmente. As telas pretas, as mãos frenéticas que só param de digitar para falar ao telefone ou usar o mouse, os olhares frios, os diversos tics, canecas de café e olhos vermelhos.
Este é um espaço de cativeiro. Fomos colocados aqui para produzir. Não há ninguém nos dando feno, nos guiando pelos pastos mais propícios, nenhum nos vêm tirar o pêlo ou o leite. Nossa capacidade de pensar, não pensando, é o que conta. Nossas mentes devem estar ocupadas, o trabalho é tão incisivo sobre elas que nos sentimos perdidos quando não há nada a ser feito: entramos no estado de tontura.
Ficar parado é perigoso. Não se deve ficar sem atividade, que tarefa colocar no registro das horas trabalhadas do mês durante aqueles míseros quinze minutos em que nos entregamos ao devaneio de pensar nossa condição de zumbi? Pensar é perigoso, perigoso porque a inatividade é sinal de incompetência, o pensamento, de rebeldia. Incompetência é trabalho mal feito, trabalho mal feito é baixa produtividade, que reduz o lucro, que te reduz a uma pequeno aumento na variação das estatísticas de desemprego.
Ambientalistas falam dos coitados dos animais que estão em cativeiro e que serão assassinados para alimentar outros homens. Nós aqui também, também estamos num cativeiro branco onde nos é “dada” a possibilidade de escolher entre entrar ou não. Ficamos aqui se queremos, como se o mundo nos desse muitas possibilidades de escolha: trabalhe ou morra. Há gente que defende os animais, deveriam incluir algumas atividades ditas “dignas” nas revindicações.
Não posso me enganar muito. Sou um escravo. Da grande multinacional, do governo, da sociedade. Discurso rebelde, rotulado e taxado de chavão. Sim, porque o chavão se repete todos os dias. Diga-me, você, não irá minimizar o navegador quando seu chefe aparecer na sala? Não irá dar desculpas para sua mulher que está trabalhando? Não vai iludir a si mesmo dizendo que ler é útil, que os blogs fazem você ficar mais culto, mais preparado para a nova entrevista de aceitação ao trabalho – escravo?
PS: Ótimo post do blog Fogo nas Entranhas chamado Contramão que fala um pouco desses problemas com o trabalho.
