Posts de Outubro, 2007

A Casa

Outubro 29, 2007

Abra a mala e deixe as roupas sairem, para tomarem seus lugares no armário.

Limpe delicadamente os novos pertences, antigos para os que daqui se foram.

Olhe com cuidado o novo lar, um dia será velho e mais velho o deixarás.

Corra com ânimo em volta da casa, antes que conheças os vizinhos.

Não vá ao banheiro no primeiro dia, o vaso gosta de devorar desconhecidos.

Tome cuidado com os degraus, alguns são mais curtos do que parecem.

Antes do primeiro jantar, deixe que a casa lhe sirva seu prato especial.

Não olhe no espelho até que ele goste tanto de ti que minta sobre como tu és.

Arrume sempre as cercas dos quadros, para que os cavalos não andem pela sala.

Desligue a tevê dentro da primeira hora ou então ela desligará você.

Leia primeiro o último capítulo dos livros, para não ter surpresas desagradáveis no final.

No primeiro mês não limpe o lixo, seja simpático com os ratos – vizinhos presentes.

Ao escrever, leia em voz alta, as paredes não podem ler mas não são burras como as portas..

No inverno sempre feche as janelas a noite, ou as plantas entram em casa – gostam de calor.

Cuidado com o que diz na cozinha, a fechadura de sua porta perdeu o segredo há tempos.

Não use água sanitária na máquina de lavar, ela tem nariz sensível e o espirro é forte.

Peça licença à porta, dê bom dia à geladeira, há quem goste de respeito.

Nunca durma só, você pode sofrer um ataque da solidão ou virar companhia do tédio.

E, antes de ir embora, feche bem a casa mas não desligue as luzes — o absurdo também gosta de clareza.

A Casa - Siena - Por mim Gustavo BacK

A Mulher

Outubro 5, 2007

(Situação com relação ao suposto plágio está esclarecida abaixo, nos comentários. De acordo com João Batista do Lago não se tratou de nada mais do que um erro de comunicação entre ele e o editor do site MHARIO LINCOLN DO BRASIL )

 

Texto feito para o Clube de Literaturas do
O Biscoito Fino e a Massa sobre Borges.

Ele estava sentado no banco, não fazia como outros que por ali paravam carregando consigo sempre um jornal. Estava ali com um volume de uma enciclopédia ganha há algumas semanas. Seus olhos percorriam loucamente os verbetes, procuravam relações desconexas, iam da física à lógica, desta para a matemática, do cálculo para a metafísica, da metafísica para a semiótica, da semiótica para a filosofia e da filosofia o olhar se dirigia às crianças que brincavam alguns metros à sua frente. O som das brincadeiras lhe agradava, parecia contrastar com o rigor e a seriedade daquela literatura que o atraia, e assim, de algum modo rigor e distração se equilibravam em sua mente.

No último mês permanecia por horas ali naquele banco, nada de especial. Talvez fosse apenas a algazarra infantil que o atraísse. Mas na verdade, este era um dos poucos locais no qual conseguia se concentrar sobre sua leitura. Se retornava à casa, lhe vinham as lembranças, os medos e as dores, então seu olhar sempre abandonava as páginas para se encontrar com um vazio que consumia seus pensamentos e o mundo a sua volta, um infinito vazio. Ele com suas centenas de verbetes lidos, filósofos compreendidos, livros escritos, viagens realizadas, não podia desvendar certos mistérios. Sentia-se com o controle daquilo que era o pensamento, as letras, as enciclopédias e a língua com a qual sangrava seus novos contos. Mas as mulheres, isso ele não podia compreender – seu casamento era a prova cabal. Havia uma muralha entre ele e elas. Mais do que isso, havia uma fortificação em torno da mulher – isto o angustiava.

Todos em algum momento da vida tendem a cometer certos atos dos quais se envergonharão, muitas vezes se deverá fazer tantas outras coisas, das quais também poderemos vir a nos envergonhar, para esconder esses pedaços de nosso passado. Ele não havia grandes segredos e os pequenos, uma hora ou outra, eram sempre revelados àqueles que lhe eram íntimos. Porém, as mulheres em seu ar de castidade, de apego à família, de amor incondicional escondiam qualquer coisa. Sob a força e a delicadeza estava uma astúcia, uma inteligência e um silêncio, que se não fosse por esta beleza feminina, manteria nós, homens, bastante distantes delas. A mulher que pacata aceitava as ordens do marido, as imposições do pai, aprendeu a lidar com o poder de forma sutil, se ela não podia argumentar no momento público, sugeria no silêncio do quarto; para impor-se, seduzia; quando era preciso controlar, manipulava, jogava com as situações; se segredos eram perigosos, dissimulava, iludia e mentia; enquanto um homem utilizava-se do corpo para oferecer dor e assim atingir seus fins, à mulher cabia usar o corpo diante à volúpia sem fim do sexo masculino. As mulheres o atraiam, mas os segredos escondidos atrás de um olhar feminino lhe angustiavam, as armadilhas de uma mulher lhe deixavam com medo.

A mulher é a Esfinge, pensava ele. Se havia um problema sobre a verdade que ele não conseguia lidar, era com este. Diante de uma mulher ele era apenas uma criança, não haviam enciclopédias ou gramáticas, geometrias, algebras ou cálculos, todas as referências bibliográficas foram riscadas até que as páginas transformaram-se em borrões.

As crianças haviam parado de brincar, uma a uma retornaram para suas casas. De mão dadas iam senhoras de sociedade, belas, dignas, religiosas e devotadas aos seus filhos e maridos. Ele as olhava e tentava compreender até que ponto poderiam chegar para manter a união familiar, a felicidade dos filhos ou a ignorância de um marido. Tentava compreender se suas mentes poderiam ser tão frias quanto algumas vezes viu sua mãe ser, queria saber quanto tempo elas conseguiam resistir sem revelar um segredo ou se os atos ficavam apagados no passado, até mesmo nos seus, para que não houvessem possibilidades de revelações.

Pensava tudo aquilo e estava inquieto. Decidiu que era hora de voltar para casa, já que tendo as crianças partido com suas brincadeiras, ficar aqui ou retornar àquele infinito vazio que vinha lhe tomando constantemente, seria o mesmo. Ao retornar à sua biblioteca para guardar a enciclopédia sentiu-se um pouco mal e sentou-se na escrivaninha. A mulher é o maior enigma do homem – ela é a verdade em si e a ausência de verdade para o homem. Não é a toa que verdade é um substântivo feminino. Um nome lhe veio à cabeça. Pegou um maço de folhas de papel e escreveu o nome da esfinge – Emma Zunz.