Eu? Tu! Nós…

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Deus fechou os olhos, se esqueceu de mim aqui, nesta ilha, perdido, triste, solitário. Sem deus, mulheres ou amigos, o que será de mim? Apenas eu mesmo! Não mereço tal destino, tal fatalidade. Não penso que um papo comigo mesmo seja algo valido ou valioso, será tudo confusão, briga, horror… não quero ter de encarar-me. Eu sei muito a respeito de minhas verdades para que possa encara-lás sentadas nesta pedra diante de mim numa imagem espelhada por minha própria consciência. Uma imagem suja de sangue, suor, excessos e odores, minha imagem de mim mesmo. Prefiro a dor da morte mais cruel a ter de me enfrentar, sempre fugi de mim mesmo, encarar-me é trabalho demias, dor demais, conflito demais. Ow! Deus cruel que me põe diante de mim mesmo! Será esse meu maior purgatório, a companhia de alguém que desconheço? Sou apenas dois, não vários como defendeu uma vez o poeta, mas dois, um aqui, louco para fugir de si mesmo, e outro, seguindo-me em busca de minhas palavras, do desespero em minha face, da culpa em meus olhos por aquilo que ele cometeu! Sei que a boca suja falará do passado, das coisas que foram cometidas, dos segredos e desejos que tento guardar e reprimir, e ele, ao contrário, busca escancarrar, viver, gozar, ser mal, ser bom conforme sua vontade, sem ética, sem medo, sem pudores.
Ouço sua voz me falando dos crimes, das várias mortes, das paixões femininas que entraram no profundo poço da depressão, das meninas virgens agora sem sua honra, dos amigos traídos, dos inimigos arrasados pelo poder e pela força do bastão, das corrupções na igreja, do pai louco, da mãe suicida. Ele geme aos meus ouvidos, canta cada uma das suas maldades, sua face sorri, gargalha diante de meu desespero, pede para que eu me aceite, que eu o aceite! Tenta me mostrar como somos um só, inseparáveis, não polo norte e polo sul, não yin-yang, mas uma massa única, farinha misturada ao trigo, carne e osso, dois distintos mas inseparáveis – um complementando o outro. Não como um médico nas frias tardes londrinas e um monstro a assassinar pelas noites. Não dois, mas um único ser em atitude, com uma consciência imposta, a que quer o bem, e outra livre, que quer apenas estravazar a si mesma a cada momento! Ouço sua voz pedindo para que eu me aceite, para que o aceite, para que nos aceite.
Oh, Meu Deus! Que tortuoso castigo fazes a mim, pôr-me só nesta ilha! Onde estão as jovens meninas para que eu corrompa, ou o poder para eu abusar?! Onde?!

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