Pai, Filho

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Quantos de meus sonhos, filho meu, foram consumidos pelo tempo sem que eu tivesse oportunidade de levantar-me e correr atrás deles. Foram tantos, tão belos e grandiosos sonhos, quase todos ficaram pelo caminho da vida sem que eu dedicasse a eles o tempo devido, o amor necessário, a paciência exigida. Passei pela vida aproveitando as grandes coisas que ela me ofereceu: as pequenas alegrias. Extasiei meu ser em cada pequeno momento da vida, naquelas coisas mais simples, mais belas, as verdadeiramente válidas, as que nos fazem transcender as dores, os medos, as derrotas em prol de uma ressurreição diária, de um sorriso, de uma boa conversa à mesa de um bar com amigos sinceros, do abraço de quem se ama, de um pôr do sol, de uma caminhada pela praia ao anoitecer, de um gracejo de criança.

Foi em ti meu filho que tive o maior de meus sonhos realizados e as menores, conseqüentemente as mais sinceras, alegrias de minha vida. Durante longos anos foi ao teu futuro que dediquei todo aquele presente já passado. Em cada novo passo teu que se firmava no chão um sorriso se abria em mim e era como se eu fosse a síntese mais fiel do que se chama felicidade. Tuas novas palavras eram como que prêmios de um valor inestimável que eu recebia. Foste crescendo e os anos te dotaram de uma inteligência e alegria que a mim muito lembram na juventude, mas que a mim muito transcendem e isto me deixa intensamente feliz ainda hoje.

Os anos se passaram meu filho, filhote. A criança deu lugar ao homem que hoje me orgulha. As palavras débeis e o vocabulário escasso deram lugar a todo um conjunto de técnicas que usas muito bem articuladas e fazem de ti como que um menestrel a mostrar a quem quer que seja aquelas idéias que tens. Os passos cambaleantes foram substituídos por um andar firme, por um corpo pronto para a batalha que é a vida, para levar nosso sangue adiante. Hoje não precisas mais que eu te segure pelas mãos para que teus passos sejam dados.

Não quero, filhote, extender-me demais nesta carta que a ti entrego como o maior bem que posso te deixar por herança. Sabes que aquilo que acumulei ao longo da vida não vale tanto para mim, são apenas terras, dinheiro, alguns meios de se fazer mais dinheiro, para mim tudo isto é apenas uma forma de tornar a vida mais leve. O verdadeiro valor está dentro de nós, em como encaramos a vida. Foi isso que tentei te passar ao longo dos anos e espero que carregues contigo por toda vida.

Não busque nos outros, jamais, os motivos para aquilo que queres fazer. Faça as coisas porque desejas ou porque elas podem trazer algum benefício pra ti, ou pra alguém que amas, o que sempre dará no mesmo. Confie em ti para fazeres aquilo que desejas, saiba confiar naqueles que estão a tua volta, jamais cegamente. Estejas sempre atento às coisas do futuro, saiba prever e antever o que está por vir, mas nunca deixe de viver o teu presente. Nos momentos de fraqueza, de solidão, de medo, daquele sentimento de incapacidade que a todos nós abate num momento ou outro não hesites em procurar um amigo, entretanto estejas sempre consciente de que tudo só irá melhorar por ti, jamais pelos outros. Aprenda, também, filhote, a contar com a força do tempo, ele a tudo consome e tudo leva em sua maré; muitas vezes nos põe em desespero quando ansiamos demais por algo, mas também é ele que faz a tudo acontecer num momento ou outro.

Sinto-me como o elefante que vai se afastando da manada por perceber que seus passos não podem mais acompanhá-la. O tempo passou e me deixou assim, a mercê destes males que agora me consomem mas que não podem tirar a alegria de uma vida de amigos, sonhos e sorrisos. Em breve não estarei mais por aqui, por isso te deixo esta carta-testamento, quero que saibas que fostes uma de minhas maiores alegrias, quero que saibas que fui muito feliz nos caminhos que trilhei e que a tristeza, que também esteve comigo por muito tempo em vários momentos, apenas ajudou-me a dar ainda mais valor às horas de alegria. Por isso te peço que não chores num destes momentos inevitáveis que o tempo há de trazer pra nós, sorria apenas sorria porquê eu estarei sorrindo. Não há com o que chorar quando se soube viver a vida, por isso seja forte. Olhe pra frente e, como eu, sempre viva. Viva!

(obs: este texto estava guardado há dois meses sem ser concluído, neste sábado parei em frente ao pc e fiz os dois últimos parágrafos além de dar uma primeira revisada. Li ele para meu pai. Até aí nada demais, o engraçado foi a coincidência em assistir o filme “Invasões Barbaras”, que minha namorada havia escolhido, na mesma noite. Senti como que meu texto fosse parte daquela história. Fica meio estranho ler esse “testamento” agora, tenho a sensação de que ele foi baseado no filme, mas fica aí, foi mais uma dessas coisas engraçadas que nos acontecem no dia-dia.)

5 Respostas to “Pai, Filho”

  1. Maíra (EDS) Says:

    Nossa! Muito legal mesmo, super bem escrito!!! Você está de parabéns Gustavo!!!🙂

  2. Jussara Says:

    Receber uma carta desta já vale uma vida inteira.
    Parabéns pelos pensamentos e pela escrita deles.
    E obrigada por nos presentear com este texto.

    Bjim

    Jussara

  3. Carlos (EDS) Says:

    Legal, Gustavo, parabéns!

    É muito interessante ver este texto sendo criado por uma pessoa que não tem filhos (e que ainda está na idade militar…).

    Outra coisa que achei interessante: dá para sentir os dois estados de espírito diferentes. Quando li da primeira vez, achei que era proposital, para demonstrar a conclusão. Ficou muito bom.

    Parabéns novamente!

    Abralho,
    Do Doma

  4. Adriano (EDS) Says:

    Excelente texto Gustavo! Meus parabéns!

    Escrever e principalmente ler, são sinônimos de liberdade. Como teríamos pessoas melhores se todo jovem pudesse compreender essa máxima!

    []s

    Adriano

  5. Juan Pablo Cienfuegos Says:

    a questão é, o cara morreu?
    haha
    mto bom, flw

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