Ditadura (Trecho)

by

Seus gritos arranhavam as paredes, rangiam as grades, ouriçavam os cabelos daqueles que também já haviam gritado de tal forma e agora limitavam-se a ouvir suas próprias vozes, aterradoras, saindo pela boca de um outro: gritando, gritando. Gritos aterradores que imploravam, imploravam, um pouco de paz à carne já maculada, já sofrida, embebida no sugo do sangue.

O punhal cortava a pele, os fios em volta da carne, a unha arrancada, os berros e os choques horríveis. Os socos. Um, dois, três, na face já desfigurada. As vozes graves que diziam "diga", "fale", "confesse", "incrimine". O olhar. O olhar que falava de morte, mas se fosse morte o que ele trouxesse, ainda assim, seria um bem, a morte, naquele momento, seria no todo um bem. O maior bem possível, então, seria a morte. Entretanto os olhos que falavam de morte não eram coerentes com as mãos que falam de dor, da dor terrível que vinha se seguindo e iria se seguir até que a boca se abrisse e pronunciasse o nome daqueles que com ele lutaram.

Olhava para um lado, naquele pouco que conseguia enxergar devido aos olhos já inchados, a cara desfigurada. Olhava do jeito que ainda podia e via nas mãos – mãos daquilo que deveria se chamar polícial, defensor público, de homem honesto, de família – com medo, um terrível medo, mais uma máquina de tortura. E ainda os choques, as agulhas sob as unhas, os socos, ponta-pés, as costelas quebradas, o rosto de um outro: um ser absolutamente deformado, irreconhecível; um ser sem face pois a tal rosto quem se prezaria a olhar por demasiado tempo em busca de uma identidade qualquer entre os hematomas e o sangue? A dor era muita, tão impossível de ser descrita ou imaginada quanto suportada. Ele não suportava mais, ele não podia mais suportar, fugir à dor era impossível, dor impossível. Impossível suportar: não seria ele o monstro a denunciar os que com ele estavam.

(Esse é um trecho de um conto que chamo de Ditatura. Faz parte do Holocausto Infinito e surgiu numa noite que pode se chamar de "sinistra", uma daquelas noites fora das quais um texto assim não pode surgir. Não pretendo colocar aqui o resto deste conto, creio que não vá fazer diferença, contudo caso alguém se interesse email-me que envio o resto da história.)

Uma resposta to “Ditadura (Trecho)”

  1. V.B. Says:

    Eu escrevi um conto há algum tempo que chamava Ditadura também. Mas era sobre os sofrimentos, torturas e mutilações auto-impostos. Também criado numa noite que se pode chamar de sinistra.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: