Caixa, Oração e Escombros

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Sentou-se no canto do ginásio. Tirou da mochila uma pequena caixa que olhou por um longo instante até que um estrondo a despertou e fez com que a garota abrisse delicadamente a tampa de metal. Havia ali duas cartas, algumas fotos espalhadas, três ou quatro pedaços de tecido, um caderno de anotações repleto de orações além de uma fita de cabelo.

Colocou a caixa sobre as pernas e olhou discretamente em volta para ter certeza que ninguém a observava com demasiada atenção. Tirou as cartas, em seguida o caderno de orações, para então se deter na foto de si mesma três meses atrás. Naquele dia ela e algumas amigas da escola haviam saído para acampar em companhia dos pais de uma delas; a noite fora longa, cheia de risos, histórias, sonhos e petiscos. Ela deteve-se um pouco mais sobre a foto e prestou atenção à imagem de sua melhor amiga. Olhos negros, cabelos longos, um rosto que não era o padrão de beleza do qual aquelas amigas sempre ouviram falar, mas que era em si belo, singelo e passível do carinho de um bom homem. Lembrou de quando as duas se conheceram na escola, dos planos que tinham de viajar, conhecer novas culturas, terem suas famílias morando no mesmo bairro, de um dia irem a um país estrangeiro e terem, ao menos uma vez na vida, os cabelos ao vento presos apenas por uma fita de cabelo vermelha.

Já não era possível controlar-se. O choro chegou sem pedir licença e lhe tomou. Silencioso, calmo, nostálgico, contudo recente demais para que houvesse um sorriso depois, um “como foi bom”. A garota só se perguntava “como pôde?” Puxou outra foto e então fechou a caixa. Ali, naquele pedaço de papel colorido, estavam seus pais. A mãe de trinta e oito anos, o irmão mais novo, o pai e o avô. Ouviu outro estrondo, mas seu olhar não se desviou da foto. A imagem era uma nova forma de contato, mais presente que a simples memória, como se a garota precisasse de algo no mundo exterior para que a existência daquelas pessoas que a amaram pudesse se fazer de alguma maneira.

Abriu novamente a caixa, nela depositou a foto com as amigas e as cartas; ficou em suas mãos a foto familiar e o caderno de orações. Guardou a caixa, soltou os cabelos, ajeitou-se no banco de forma um pouco mais confortável e suspirou profundamente apenas esperando que dessa vez conseguisse controlar o choro. Serenamente folheou o caderno em busca de uma oração. Não se lembrava muito bem do nome, pois aquela seu avô quase lhe obrigara a copiar visto que ela não aceitava ter de rezar tal prece um dia, mesmo que esse momento pudesse estar muito longe como pensava ou muito perto como a vida veio a lhe mostrar.

Oração aos Mortos. Era esta a oração, era esse o momento que ela jamais imaginou, por ser doloroso demais para ser concebido por um coração que era feliz. Olhou pro alto, mas só havia o teto do ginásio, Deus não estava lá. Onde estava Deus? Brigando com outros, como faziam os homens lá fora do ginásio? Estava rindo dos homens? Ou apenas testando sua fé? Onde estava seu deus, lá estavam aqueles que ela ama.

Pronunciou com voz angustiada o nome de seu avô, pai, mãe e irmão. Seus olhos buscaram Deus acima de si novamente, mas só encontraram o telhado do ginásio. Iniciou a oração, mas seu peito não era sincero nas palavras que dizia, ela só conseguia pensar “porque eu tive de ficar?”

Concluída a prece, esgotadas as lágrimas, não havia mais Deus no restante daquela noite, mas apenas demônios, tiros, foguetes e morte. Seu coração silenciara, mas no ginásio muito choro ainda seria derramado, pois a noite apenas começava. Deitou-se no colchonete, usou a mochila como travesseiro e dormiu.

No dia seguinte ela não estava mais no ginásio. A noite fora de sonhos muito tristes: dor, medo, raiva, solidão. Tudo que o dia lhe tinha trago a noite fazia questão de reforçar. A vida parecia muito frágil para que pudesse ser vivida plenamente, Deus havia se tornado muito distante para que as orações que ela pronunciasse pudessem alcançá-lo. Teve vontade de partir, mas não precisou — fizeram isso por ela.

Na manhã seguinte ela não estava mais no ginásio. Entre os escombros havia apenas a mochila, o caderno e as foto. Ao lado dos objetos não estava mais ela, mas somente mais um número para as estatísticas de mortos de guerra.

Uma resposta to “Caixa, Oração e Escombros”

  1. V.B. Says:

    Também tenho uma caixa assim, com fotos, cartas, lenço bordado e uma fita marrom de veludo. Mas meus mortos são sempre velados… Uma troca, já que sei que eles velam por mim.

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