X é Justo?

by

O que dizer de alguém que num dia ajuda um necessitado completamente desconhecido com cinqüenta reais e no outro dia nega pão para outra pessoa, também um desconhecido necessitado?

Podemos chamar tal indivíduo de hipócrita, mau, incoerente? Ele mesmo não se achou tudo isso enquanto fazia sua negação à segunda pessoa que lhe pedia?

Pois bem, que se coloquem os detalhes das situações: a primeira pessoa a quem o invíduo X deu os cinqüenta reais foi um senhor em seus sessenta anos de idade que estacionava uma carroça próximo ao apartamento onde X mora para pegar um sofá velho. O senhor tinha as mãos calejadas pelo trabalho, usava um blaiser velho, surrado, tinha o rosto cheio de rugas e a pele marcada pelo sol e pela labuta. Ele não pediu ajuda qualquer, queria apenas saber se X conhecia o vizinho. Ao ser perguntado sobre como andava o trabalho o velho senhor queixou-se, ainda que com um sorriso no rosto, “trabalhei a manhã toda carregando aterro pra ganhar quinze reais, mas foi fiado”. X não via outra possibilidade que senão sacar a carteira e entregar singelamente ao senhor uma nota de cinqüenta reais. Não que aquilo fosse pouco dinehiro para X, ao contrário, mas ele sabia que faria mais diferença na vida do velho senhor naquele dia do que poderia fazer na sua. O senhor recebeu a nota, agradeceu sem jeito mas sem negar o dinheiro — com toda a dignidade pertinente a quem precisa mas gostaria de recusar.

Já o segundo indivíduo chegou-se para X às nove horas da noite quando ele, X, estava voltando de uma pequena mercearia com pão, refrigerante e chocolate. Vinha descalço atravessando a rua para abordar X. Seu olhar não era de quem tinha fome, estava com frio, ou medo de algo; o segundo indivíduo parecia querer algo a mais: a carteira, a vida de X, o que ele tinha, sua roupa, seu trabalho. X ficou sem ação, só respondeu “não tenho dinheiro aqui, gastei tudo ali na mercearia”, mentira. O rapaz insistiu: “dá um trocado aí, qualquer coisa pra eu comprar um lance ali”, X sem entender que lance seria, insistiu que não tinha nenhum dinheiro. A coisa ficava meio tensa, X estava num local com algum movimento mas ainda assim havia medo nele. O rapaz não possuia nem a tranquilidade nem o trabalho que estavam na face do velho senhor, ao contrário, sua face era arrogante e pareceu a X que exigia dele aquele pão, qualquer coisa, mas que teria de tirar algo de X.

Agora, eis o X na questão. Será ele mau por fazer dois julgamentos distintos de uma mesma situação? Não estará o rapaz muito próximo do senhor? Se o senhor merecia uma ajuda “generosa” não merecia o outro rapaz uma ajuda qualquer? Será que o medo dos nossos dias não fez X se negar? Ou terá sido a postura arrogante do outro lado?

Depois da negação ao rapaz, X chegou em casa, colocou as compras sobre a mesa da cozinha e foi para o seu quarto. Deitou-se na cama e se perguntou se ele estava errado, se deveria ter dado o saco com pão, mesmo com a arrogância do rapaz, mesmo com o medo dele! Lembrou-se de si mesmo e dos vícios que tinha, viu o quanto estava próximo em ser aquilo que o outro rapaz era. Se por alguns motivos ele tivesse um momento na vida menos oportuno, não estaria ali, pedindo comida? Ou será que todos temos oportunidade de fazermos o que achamos bom e, logo, o senhor acertava enquanto lutava contra a vida enquanto o rapaz fugia dela — já que nele não parecia haver a dignidade do trabalho e nem hombridade?

E qual dentre os dois, o senhor e o rapaz, já havia negado ajuda a alguém? Quais deles teriam cometidos males muitos piores que este a que X se condenava? Não deverá existir qualquer tipo de mérito a mais no senhor que se empenha pelo pão e não exige que os outros lhe possibilitem aquilo que ele sabe ter de buscar? X se perguntava se havia sido justo. Pensou enquanto passava manteiga no pão, sentiu um pouco de nojo na primeira mordida, lhe doía na consciência a negação que havia feito. A noite foi longa, as duas horas da madrugada X desistiu de se julgar. Levou pra cama, durante a oração que fazia a um Deus que sabia não existir, a seguinte máxima “Que num momento de dificuldade, dor ou fome, eu encontre alguém tal como a mim mesmo: se eu merecer, que tenha a recompensa; caso contrário que tenha, mais uma vez, a oportunidade e a hombridade de fazer-me melhor.”

Uma resposta to “X é Justo?”

  1. maray Says:

    X julgou o exterior. Usa termos como “calejado pela vida” ou “olhar arrogante”. O velhinho aquele pode ser um tremendo mau-caráter, que bate na mulher e filhos, etc, etc, e o rapaz um cara desesperado que há meses e meses vem tentando um trampo em vão, e hoje não tem comida nem pra dar aos filhos. É difícil julgar. Eu já desisti há muito tempo. Quando alguém me pede comida, dou. Quando me pedem dinheiro não dou. Tracei essa regra pra mim mesma e sigo. Não é melhor nem pior do que qualquer outra. Não faz de mim uma pessoa melhor nem pior do que qualquer outra. Acho que suas últimas palavras são a chave. Fazer aos outros o que gostaria que fizessem pela gente.
    É cara, a vida é difícil.
    beijos

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: