La Serenissima

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Ele pagou relativamente bem ao responsável pelo museo daquela tarde para que pudesse estar parado sobre a ponte. Há exatos doze anos ele estivera ali, não na ponte, mas passando sob ela, numa gondola, abraçado à sua antiga namorada. Ainda era inverno e eles vestiam casacos pesados que distanciavam o calor das suas peles, mas não de suas paixões. Aos vinte e dois anos nada poderia lhe ter sido melhor do que viver aquele amor e todas as aventuras que encontrou por terras estrangeiras, havia mais de uma década que tudo aquilo ocorrera e as coisas eram já bem diferentes: não podia ter a companhia dela, portanto as gondoloas seriam demasiadamente dolorosas, além de ridículas quando um homem pesaroso vai nelas só.

O gosto do vinho que ainda percorria céu da boca, gengivas e línuga lhe despertava o paladar, mas ele foi cedendo espaço à memória do creme que ela passava na boca naquelas tardes de inverno italiano. O doce do morango aliado à textura de seus lábios era o maior manjar que ele poderia ter provado naqueles meses em que ficou numa terra que se destaca tanto pelo sabor e requinte de seus pratos. Viu-se tempos atrás passando por sob a ponte; viu os sorrisos, os carinhos, os gestos e sentia o que havia de mais precioso naquela época: o amor.

Colocou a mão no bolso do paletó e trouxe nela um pequena trouxa de pano que foi abrindo delicadamente até revelar uma aliança. Tocou com o indicador as bordas do anel e sentiu apenas o frio do metal e a dureza de suas propriedades químicas já desprovidas de outras características tão mais importantes: as passionais.

Apertou a aliança entre as duas mãos e fraquejou, não queria livrar-se da lembrança, entretanto desejava acabar, mais que tudo, com a saudade. Apoiou os cotovelos sobre o parapeito, fez o gesto que tanto planejara: deixou o anel escorrer entre seus dedos e ir em direção às águas para um descanso profundo no único solo daquela cidade suspensa que ele considera eterna, senão sobre suas palafitas mas na memória daqueles que lá estiveram e que quererão torná-la tão eterna quanto suas próprias vivências lá. Sob aquela ponte e sobre o único solo que a Veneza cabe, ele depositou a esperança de que houvesse um eterno retorno e dentro de um tempo incalculável pudesse viver aquele amor efêmero novamente, mesmo com a dor destes momentos que lhe machucavam.

Andou indefinidamente pela cidade até que traído pelo cansaço sentou-se nas escadarias do Palazzo Ducale. Àquela hora ninguém lhe incomodaria, Veneza era uma outra que ele até então não conhecia, a noite ela era ainda mais Sereníssima. Ele estranhava os dedos sem aliança, mas a solidão já lhe era companheira; desde que ela havia abandonado o casamento por um outro homem, tudo que ele fazia era andar por lugares que desconhecia buscando em outra mulher os olhos daquela que lhe renegou. Nunca conseguiu encontrar, sua andança durante esse tempo sempre tivera um destino, já era hora de um novo tempo: andar pelo mundo por andar.

Como andarilho que seu coração agora se sentia, com o passar do tempo não haveria mais espaço para a dor, mas somente para a nostalgia e a perspectiva de uma manhã de Sol. Enquanto se levantava para voltar ao hotel lembrou-se de Nietzsche e do andarilho que encontrava, nas montanhas com suas musas, dias de uma claridade muito mais profunda, cheia de serenidade diante da vida e não este desespero que ele tanto sentiu nos dois últimos anos de solidão. Talvez ele devesse continuar andando, não em busca de uma nova paixão, mas de si mesmo.

Enquanto rodava pela cidade seu espanto ia aumentando com o encantamento que sempre se renovava nele ao se deparar com as praças, igrejas, palácios e pontes de Veneza. Parecia haver beleza demasiada ali, o cheiro da cidade lhe intorpecia, os sons e o reflexo das luzes na água lhe encantavam. Doeu em seu peito pensar que algum dia tudo aquilo poderia ir abaixo, toda aquela glória virar mera lembrança como esta que ele carregava consigo. Ainda assim haveria algo, o que passou e valeu: Veneza valeria ainda por séculos, sua antiga esposa lhe seria um amor válido por anos ainda.

Achou que deveria mudar de amor, não buscar, mas andar à mercê da sorte, dos caprichos de Afrodite. Seus olhos brilharam pela nova possibilidade, mas a lágrima pelo que poderia deixar lhe denunciou. Poderia ele alcançar a serenidade em sua vida? Esperar os amores e viver para eles sem desespero? Poderia esquecer aquela fabulosa paixão em prol de uma outra, não melhor, mas nova? Seguiu para o hotel e já trilhava os caminhos de uma nova vida, com novo ânimo e uma nova esperança: Veneza ainda sobreviveria alguns anos para que novos amores descobrissem com ele a beleza que só encontrou na Sereníssima, a mais bela de suas paixões.

Uma resposta to “La Serenissima”

  1. V.B. Says:

    A feroz e ferina grande paixão… Talvez só um belo e forte amor pra dar conta dela.

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