Elogio à Excelência

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Quero poder viver segundo nova regra. Fugir de tantos e tão maculados valores que me dizem que sentir orgulho é pecado; querer ser o melhor, arrogância; sonhar com a imortalidade entre os homens, absurdo; superar a si mesmo, desnecessário. Quero ir além das receitas de livros de auto-ajuda, não quero ficar preso à máquina equalizadora da sociedade que insiste em pôr todos no mesmo nível, que quer fazer de todos iguais, pares, desprovidos de personalidade, diferenças e possibilidades.

Quero ter minhas mãos firmes para agarrar desafios e fazer-me herói! Desejo ouvir o deslumbrar do mundo diante de meus atos, quero que no umbral de um palácio esteja meu nome gravado. Quero, sim e como quero, ver minha luta transmitida por séculos e séculos através da língua incansável de novos arautos e aedos digitais; se eu tiver palavras belas além de minhas ações, que essas ecoem pelo mundo afora e que eu faça com que jovens se arrepiem diante de desafios e se joguem também no abismo da vida.

Não devemos ficar agarrados à segurança. A vida é muito grandiosa para que se viva preso apenas às  certezas. Há de se ter o ímpeto para o novo e o temível, pois um homem só é homem quando se encontra só diante de seu maior temor. Não há quem seja grande que não tenha olhado ao fundo do abismo e face ao grito terrível da garganta que lhe chamava não tenha querido ali se jogar para que pudesse sentir a velocidade de seu corpo, a força do vento e o gosto do chão firme.

Vejo as crianças serem criadas, assim como eu fui, aprendendo a se envergonhar de sua força e de seus sonhos. Que há de se ser realista, que há de se ser humilde. Se o céu está cheio de humildes, prefiro eu o calor de um inferno cheio de almas fanfarronas e heróicas, de seres que não baixam a cabeça no momento da tréplica, que não fogem de uma luta, que não oram a deus pedindo pela solução de seus problemas. Quero conhecer gente que saiba que o mundo é muito fabuloso para que seja vivido na clausura de um apartamento que se estende aos três metros quadrados de onde desempenha seu trabalho.

Quereria eu ser um soldado para morrer por minha pátria de forma heróica, por escolha e por amor, não submetido pela ordem de um tirano democraticamente eleito, não pela necessidade de sustentar minha família. Quereria ter a força para lançar o melhor discurso e que nele estivesse o impulso motor que colocaria o mundo a analisar sua condição, que faria, mais do que tudo, o homem se questionar!

É difícil estabelecer-se em nós o senhorio de nossas vidas, viver em sociedade é estar preso a tantos outros que também querem se livrar de seus jugos, nós. Quero novamente uma guerra; quero ver Nietzsche em sonho, junto de Schopenhauer, seduzindo as musas que habitam verdes bosques; quero ouvir a natureza se rebelar, também, contra a crueldade do homem; quero o ardor de um canto pagão; e quero o longo sono que segue uma jornada. Quero morrer com 299 comparsas, ser exilado por ter feito meu melhor, minha justiça; quero a tortura e a ombridade de não ter aberto a boca no momento incorreto; quero o grito rouco da felicidade ecoando pela minha garganta diante da beleza do mundo.

Quero que a força de antigos guerreiros, que vagavam pelo mundo em busca de lutas e histórias, volte. Quero poder, novamente, cruzar com os andarilhos que levam nada consigo, mas carregam o mundo em seus alforjes. Quero a graça do palhaço que cruza a cidade não em busca da moeda, mas do devaneio de um sorriso infantil. Quero, quero viver sob o jugo de um deus que fica irado e que se embriaga nas noites de lua cheia. Quero a espada mais afiada e quero o sonho mais pavoroso para que nele corte de minha alma essas correntes que me impuseram e que agora são tão difíceis de se partir!

6 Respostas to “Elogio à Excelência”

  1. Rafael Says:

    Salve ó bardo mascarado!
    Não tinha visto a dimensão desta praça literária! E mesmo épica! Ao menos essas vamos tendo no Desterro…
    Grande abraço,
    Rafael

  2. Allan Says:

    Filosofar é preciso. Curtir a preguiça nada mais é que dar a oportunidade do livre pensar. Cadê o post novo?

  3. jonair Says:

    puta que pariu…..que força neste texto….

  4. VB Says:

    Esse texto carrega nele toda a força de um canto pagão. E que venha a fúria das palavras sôfregas por teu pulso!

  5. Helena Araujo Says:

    Grande texto!!! Extremamente revolucionário!!! Por um instante me lembrei do valente…CHE GUEVARA…Um exemplo de despreendimento,idealismo, e determinação em sua luta por justiça social e liberdade na construção do homem vivo.
    Parabéns!!!

  6. Helena Araujo Says:

    Só uma 0bservação sobre o texto anterior corrigindo um erro….Na construção do homem novo.
    E alias. vc se parece muito com Gaél Garcia Bernard…Personagem do GUEVARA em Diario de motocicleta….Muita paz!!!

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