Distância

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Escuto sua voz do outro lado da linha. O peito dispara, sei exatamente o porquê. Pesa-me a falta da conversa, a ausência da voz, o momentos de discussão e de entendimento que tantas vezes temos. O passado nos mostra que apesar dos litígios, das ofenças, dos rancores pouco duradouros, das palavras indelicadas, existe algo que nos une, e só uma força muito maior poderá nos privar disso.

Tua voz tem aquele tom que conheço tão bem e que tão triste me deixa. A voz dos erros do passado, dos medos do futuro, da escuridão que se põe a sua frente, da perspectiva que te falta de tantos modos, da tristeza e da solidão que vêm e se põem ao seu lado sem arredar o pé. Minha voz também se altera ao ouvir a tua, a saudade é grande, de ti e de todos aqueles que estão aí. Falo com eles mais do que contigo, amo eles tanto quanto a ti, mas em ti há qualquer coisa que faz do vínculo mais forte, da necessidade de expressar os sentimentos mais urgente.

Digo que te amo, não por educação, formalismo ou falsidade. Digo isso porque essas palavras parecem ser a ti mais necessárias do que a qualquer outro que está neste continente, que deixei há tão pouco tempo. Falo isso porque a possibilidade de eu retornar e tu teres ido embora me deixa desesperado. Sei que o desespero não é só meu, por mais que tentes ser forte, negando tudo, também sentes essa necessidade. Ouço tua voz, mas não posso abraça-la — resta-me a memória, que não falha, mas não dá um fim à saudade que tenho agora.

Todos os dias lembro de ti, como não lembrar? Olho-me no espelho: ali há muito mais do que apenas eu, na imagem refletida te encontro nos traços da minha face, no cabelo, no formato do nariz, no jeito de falar e nos meus sonhos que são os mesmos que tivestes um dia. O que faço agora, se posso escrever mas não posso conversar contigo? Abraço o espaço vazio em que minha memória projeta a tua imagem?

Se a garganta tantas vezes tem um nó e dói falar, meus dedos agora estão amarrados e só me resta uma frase.

Espera por mim, Pai.

4 Respostas to “Distância”

  1. Bárbara P Says:

    Então, volta.

  2. Allan Says:

    Antes de voltar:
    Estarei em Riva del Garda (um lugar muito bonito, perto de Trento) domingo próximo para um almoço na casa do Flávio Prada. Se estiverem disponíveis, estão convidados (você está acompanhado, não?)

  3. Julia Says:

    Não tenho dúvida do imenso amor que o teu pai sente por ti.
    Essa sensibilidade que demontras eu também já vi nele, em outros tempos. Quando o coração dele ainda não tinha endurecido com o passar dos anos (coisa que acontece naturalmente ao envelhecermos).
    Vocês dois são muito parecidos.
    Um abraço,
    de tua prima,
    Júlia.

  4. Helena Araujo Says:

    O coração com o passar dos anos pode amolecer..!
    Endurecer jamais!!!
    Os sentimentos e a alma de uma pessoa madura…os jovens só irão entender quando atingirem essa fase…ah…só Rubem Alves em suas lindas crônicas explicaria…
    Bjosss….

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