Dois

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O homem é fascinado por certos números. Às vezes temos apenas uma preferência pessoal por um dois, três, sete, trezes, mas na maioria dos casos existe toda uma história de adoração. Castisais de nove velas, a Trindade Cristã, os nove mundo espirituais do camdomblé, os sete trabalhos de Hércules, os três reis magos, o Ying Yang. Não é preciso ir muito longe, olhe para você mesmo, ainda que por menos místico que seja, existem certos números que te acompanham e que não são aqueles da sua conta corrente ou do seu RG.Algumas áreas tem preferência específica por dado número, como que uma tentativa de se aproximar da perfeição. Não é à toa que todo o tipo de sistematização sempre procura definir as coisas em valores determinados, características que podem ser delimitadas pelo número de variações em que ocorrem: quanto menor o número dessas variações e mais perto de um número já “forte”, melhor. Olhe para o cristianismo e suas influências na filosofia: lá está o três. Pare e pense na história judaíco-cristã, veremos o sete. Pense nos pitagóricos em busca das perferições geométricas. Em todo o lugar o número assume um papel muito maior que o de mero instrumento científico ou objeto de estudo da matemática e apresenta suas características cabalisticas, míticas e divinas em toda a parte.

Na literatura parece que o indivíduo é sempre ligado a um número bem especial nessa área: o dois. Creio que a relação mais interessante com este número se dá com a divisão do Eu. Aquele que se vê conturbado com duas partes distintas: a má e a boa. Não precisamos fazer um grande esforço para verificar isto, no livro o Médico e o Monstro, onde Dr. Jekyll produz uma substância capaz de separar a parte boa da parte má de uma pessoa, contudo o resultado não foi exatamente o esperado e este médico acaba se transformando no terrível Sr. Hyde. Dualidade que se espalha pela literatura, nem sempre ligada à divisão entre bem e mal, muitas vezes paródia de dois seres que apenas diferem, e por diferirem, formam uma bipolaridade fantástica.

Mas afinal, o que um médico que vira monstro, esta dualidade, que se difunde pela literatura e pela vida, tem a ver com aquilo que é perpetuamente humano? Não é muito difícil responder, pois todos nós passamos ou passaremos por este momento ao menos uma vez na vida, pela transição continua entre dois seres incompatíveis, mas existentes dentro de um mesmo indivíduo. Uma dualidade fabulosa, o monstro que destrói dentro do médico que cura, o homem que ama junto ao que agride, a mulher que zela pelos seus filhos e despreza os alheios, o pai que ama e machuca, o velho de cara simpatica e sorriso suave que esconde segredos e horres cometidos num passado nem sempre tão distante. Ou ainda, indo além dessa mentalidade de bem e mal, apenas vislumbrando algo mais fascinante, os opostos: gordo e magro, inteligente e burro, feliz e tristonho, líder e pai, pai e filho, amigo e inimigo, belo e feio. Entretanto, não precisamos nos limitar a estes opostos tão evidentes, podemos encontrar aquela característica pessoal, única e quase indistingüível que faz com que duas pessoas possam ser muito diferentes; nessa capacidade de olhar profundamente aquilo que o homem é ou não, é que se encontra a grandeza dos gênios da literatura; e talvez por isso existam dois tipos diversos dela, um imortal, que fala da humanidade de todos, e outro mero produto temporal, que apenas conta uma história – as histórias sempre passam, o que é humano, não.

Eu sou, estou, me identifico com a possibilidade que todos temos de sentir-se dois. Hoje, a vida se mostra e posso sempre escolher duas formas de vê-la. Uma com um cínico e pessimista olhar filosófico, que escrutina o mundo e vê apenas o acaso e a dor, o medo e a contigência, o pudor e a proibição, o interesse e o egoismo. Esse mesmo, às vezes vê nessa miríade de coisas terríveis a melhor possibilidade de livrar-se de tudo que há de ruim no passado e buscar qualquer coisa de novo, destruindo todas aquelas marcas do passado que estão em nós e não podemos apagar com o simples desejo. Ainda há um outro Eu, um que vê a beleza de novos lugares, a certeza da felicidade, o sorriso que te levanta das sombras dos pensamentos escuros, o amor que cura as dores e os olhares que confessam sem ter pecados a revelar. Esse mesmo eu, filho da ambiguidade, daquilo que já é duplo, também sofre com um futuro que separa, com a possibilidade da incerteza, com encontros com aquilo que é feio e nos deixa mal; olha para o futuro e teme, tenta sorrir mas tem dores muito profundas.

Dois Eus, um simples jovem que tenta pensar o tudo e do tudo vai do pessimismo a um otimismo duvidoso; o outro que apenas se preocupa em viver, que da alegria soberba vai ao medo e à tristeza daquilo que ainda não é. Sinto-me bipartido e cada uma dessas metades ainda mais bipartida. Talvez não seja suficientemente interessante essa bipartição para que se possa criar um texto na altura de um “Il Visconte dimezzato” de Italo Calvino, onde um visconde após ser atingido por uma bala de canhão no campo de guerra, se vê divido em duas metades, uma excessivamente má e a outra inconvenientemente boa. Sinto-me como o personagem do mesmo autor no “Il Cavaliere Inesistente”, que é mas não sabe que é (“Questo suddito che c’è ma non sa d’esserci”), que ao ver qualquer coisa tenta transmutar-se nela, pois em si mesmo não há uma identidade. Ao contrário do personagem principal deste livro, que não é mas sabe que é (“mio paladino là che sa d’esserci e invence non c’è”), identifico-me com Grudulu, este que é e não o sabe, que com existência própria, mas sem identidade, busca ser qualquer coisa e com tudo se confunde e se funde. Típico problema daquele que se busca mas não se encontra e que, talvez, jamais se encontrará.

Como este blog é hoje, além de um espaço que busca ser literário e filosófico, um diário de viagem, aqui vão as bipartições destas minhas pequenas viagens dentro desta grande jornada que é viver em Terras de Itália. Primeiro as fotos e as lembraças daquele Eu que vive e que se alegra e também se coloca na dúvida do futuro. Em seguida, um clipe daquilo que sempre procuro ouvir quando o Eu “que pensa” busca um refúgio ou um modo de se afogar ainda mais nos pensamentos escuros.

Primeiro as fotos do otimista:
Garoto Fashion, musculoso e bonito😀
Garoto Fashion, musculoso e bonito :D

Cinque terri, lugar fantástico!
Cinque Terri, lugar fantástico!

Milano
Milano!

Meu primeiro boneco de neve!
Meu primeiro boneco de neve!

Sorvete de Neve, atrás, Cortina d’Ampezzo
Sorvete de Neve, atrás Cortina d’Ampezzo

Firenze e la mia fidanzata
Firenze e la mia fidanzata

No antigo observatório astronômico de Bologna
No antigo observatório astronômico de Bologna

Aquário de Genova, tocando nas araias
Aquário de Genova, tocando as araias

Depois o vídeo do pessimista:

2 Respostas to “Dois”

  1. Jussara Says:

    Passei para ler notícias suas. Vejo que está muito bem. Torço pelo seu sucesso. 🙂

  2. Helena Araujo Says:

    Estou amando ler seus escritos e te digo….Tens um grande dom pra escritor! Neste texto pude ver claramente todos os meus anseios aqui expostos de forma tão real…Vc é um ser iluminado sabia?
    Que lindas as fótos!!!
    Abraçossss….Helena…

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