Do Trabalho ou Da Tontura ou Das Escolhas

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Ensaio de uma tarde de lucidez, que aqui publicada, pode me custar uma futura vaga de emprego.

A tontura vai me tomando. À minha frente dezenas de computadores com gente, que como eu, deve estar entrando em sua tontura. Aqui todos pensam, ou pensam que o fazem, mas na verdade, acho que todos nós apenas fazemos e não pensamos realmente. As telas pretas, as mãos frenéticas que só param de digitar para falar ao telefone ou usar o mouse, os olhares frios, os diversos tics, canecas de café e olhos vermelhos.

Este é um espaço de cativeiro. Fomos colocados aqui para produzir. Não há ninguém nos dando feno, nos guiando pelos pastos mais propícios, nenhum nos vêm tirar o pêlo ou o leite. Nossa capacidade de pensar, não pensando, é o que conta. Nossas mentes devem estar ocupadas, o trabalho é tão incisivo sobre elas que nos sentimos perdidos quando não há nada a ser feito: entramos no estado de tontura.

Ficar parado é perigoso. Não se deve ficar sem atividade, que tarefa colocar no registro das horas trabalhadas do mês durante aqueles míseros quinze minutos em que nos entregamos ao devaneio de pensar nossa condição de zumbi? Pensar é perigoso, perigoso porque a inatividade é sinal de incompetência, o pensamento, de rebeldia. Incompetência é trabalho mal feito, trabalho mal feito é baixa produtividade, que reduz o lucro, que te reduz a uma pequeno aumento na variação das estatísticas de desemprego.

Ambientalistas falam dos coitados dos animais que estão em cativeiro e que serão assassinados para alimentar outros homens. Nós aqui também, também estamos num cativeiro branco onde nos é “dada” a possibilidade de escolher entre entrar ou não. Ficamos aqui se queremos, como se o mundo nos desse muitas possibilidades de escolha: trabalhe ou morra. Há gente que defende os animais, deveriam incluir algumas atividades ditas “dignas” nas revindicações.

Não posso me enganar muito. Sou um escravo. Da grande multinacional, do governo, da sociedade. Discurso rebelde, rotulado e taxado de chavão. Sim, porque o chavão se repete todos os dias. Diga-me, você, não irá minimizar o navegador quando seu chefe aparecer na sala? Não irá dar desculpas para sua mulher que está trabalhando? Não vai iludir a si mesmo dizendo que ler é útil, que os blogs fazem você ficar mais culto, mais preparado para a nova entrevista de aceitação ao trabalho escravo?

PS: Ótimo post do blog Fogo nas Entranhas chamado Contramão que fala um pouco desses problemas com o trabalho.

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