Covarde

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Olha, ele se senta na mesa e diz que vai começar a escrever o trabalho que o professor passou há um mês e que deve ser entregue semana que vem. Pega os livros de referência, escreve uma espécie de índice do que quer colocar no papel, escolhe o primeiro texto com base na sua simpatia pelo autor e começa o trabalho. Lê as duas primeiras páginas, faz algumas notações nos pés e nas margens do livro. A expressão “ostensão diferida” lhe chama a atenção. Vai ao dicionário, depois a outro livro, um manual, encontra então as referências que queria. Ora, ostensão diferida é exibir (ostentar) algo para diferenciá-lo de um outro (diferida). Pensa que o índice que havia feito antes não está bom, pode e deve deixar para começar este trabalho em outro momento, agora sua cabeça parece confusão, a coisa é simples, rápida e tranqüila de ser feita, mas agora seria melhor ler aquele outro texto que mandaram por e-mail.

Se passam cinco dias, na véspera de entregar o trabalho ele se dá conta de que tem algo atrasado, de que precisa da nota e que o professor não dá sorrisos de complacência aos atrasados. Começa a ler os textos que estavam esquecidos no canto da mesa sob um livro de quadrinhos, uma agenda de dois anos atrás e várias anotações esquecidas. Tenta ler com calma, compreendendo bem cada frase formulada, mas as idéias lhe escapam da cabeça, pois outras mais assustadoras a tomam a todo o momento: não vai dar tempo, é muito material, não vou conseguir revisar, amanhã terei tal e qual compromisso, eu sempre me atraso, eu não vou conseguir! Os olhos correm toda a sala, encontram distrações que tomam seus pensamentos mais do aqueles que ele deveria se impor. As palavras lidas vêm e vão, não ficam, não marcam seu espaço nem comunicam suas intenções.

Ah! Não consigo! Assim ele desiste, deixa pra fazer depois que dormir quinze minutos, pra depois que assistir o filme, pra amanhã de manhã, pra quando chegar na faculdade, até que não tem opções. Então, se condena, briga consigo mesmo, se promete que amanhã será diferente. Um ímpeto lhe toma, como se agora ele pudesse fazer todas as coisas que deve fazer. Volta pra casa triste, mas determinado. Há um outro trabalho deste mesmo professor, fará duas vezes melhor! Farei o melhor, se repete.

Em casa, pega o livro, começa a ler, vai vencendo os parágrafos e os primeiros capítulos, mas a excitação o toma a cada nova idéia, conexões absurdas o levam a pensar em outros autores, a ficar inquieto, a sair da cadeira e ir tomar água e olhar pela janela de tão excitado com seus pensamentos. Pega um outro livro, que surgiu de uma dessas conexões repentinas, lê quinze páginas, fica entendiado. Volta ao texto anterior, suas idéias lhe dão medo, seu medo lhe dá preguiça, sua preguiça o leva para a frente da tv. A tv fala de música e de teatro, ele gostaria de experimentar aquilo, talvez pudesse fazê-lo muito bem, mas no canal concorrente está passando algo mais interessante por hora.

E ele, covarde, vai e volta de suas obrigações. Não tanto aquelas que outros lhe colocam, mas daqueles que ele se auto impõe. O tempo passa, irremediável e abrasivo, consumindo as possibilidades do covarde fazer algo. Chega a semana de apresentação do segundo trabalho e só um texto mal revisado e feito dois dias antes é apresentado. Novamente a sensação de incapacidade. O ódio de si mesmo por saber que mais uma vez ele será covarde e que amanhã, mesmo que tudo pareça diferente, tudo será igual. Ele ficará diante do espelho dizendo a si mesmo que pode muito, sabendo, contudo, que não fará nada. Ele se sentará diante do livro determinado em aprender, mas não o suficiente para persistir. Escutará uma palestra sobre um assunto pelo qual desejará se apronfudar, mas quarenta páginas de uma das oito referências bibliográficas indicadas não é nada mais que desperdício.

Covarde, assim lhe chamam aqueles que um dia foram seus amigos, pois nem a amistosidade com alguns poucos ele foi capaz de levar adiante, de persistir. Tudo sempre foi culpa do medo, do medo de não conseguir, mas o medo foi embora, agora ele tem certeza. Não conseguirá, a vida que lhe desculpe.

5 Respostas to “Covarde”

  1. Camila Says:

    Tavas me descrevendo?
    hahaha
    Parecia. Igualzinho igualzinho..
    Triste né..

  2. Ricardo Navarro Says:

    Eh necessary certain coragem para publican este e outros texts aqua presents. Acredito que nao sejas assume Tao covered.

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  4. Holy Says:

    ara publican este e outros texts aqua presents. Acredito que nao sejas assume Tao covered.

  5. jimenezparks32294 Says:

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